Sair
Assine
Entrar

Entre para receber conteúdo exclusivo.
ou
Crie sua conta A Gazeta
Recuperar senha

Preencha o campo abaixo com seu email.

Violência contra a mulher

Feminicídios: a urgência de uma mudança cultural

Há uma classe de jovens sendo formada sem qualquer resistência às frustrações, que se vale da violência quando se sente afrontada ou rejeitada e, pior, que se acha superior e/ou proprietária de suas mulheres

Publicado em 27 de Janeiro de 2024 às 01:30

Públicado em 

27 jan 2024 às 01:30
Eugênio Ricas

Colunista

Eugênio Ricas

eugenioricas@hotmail.com

O ano de 2024 começou com um crime que chocou o Espírito Santo e o Brasil. O assassinato da enfermeira Iris Rocha, de 30 anos, impressiona pela brutalidade e frieza do assassino. A jovem, que estava grávida de 8 meses, foi morta com dois tiros na região do tórax. Seu corpo foi deixado em uma estrada rural no município de Alfredo Chaves.
Com a rapidez e eficiência que tem sido peculiar às polícias do Espírito Santo, o suspeito do crime foi identificado poucos dias depois do feminicídio. Cleílton Santana dos Santos, de 27 anos, foi preso em razão dos fortes indícios contra ele existentes.
A história de Iris e Cleílton, infelizmente, tem se repetido com bastante frequência Brasil afora. Relacionamentos abusivos que terminam com o assassinato da mulher têm sido uma constante nas páginas policiais. Pelas características do crime, que na maior parte das vezes implica em reiterados atos de violência praticados entre quatro paredes, a atuação preventiva da polícia é bastante dificultada (notadamente, quando não há comunicação por parte da vítima).
O desafio é imenso e pode ser demonstrado estatisticamente. Em 2023 o Estado do Espírito Santo alcançou o menor número de homicídios da série histórica. Foram 978 mortes, contra 1007 em 2022, uma redução de 2,9%. O número de mulheres assassinadas também teve queda, foram 88 em 2023, contra 96 em 2022.
No que tange ao número de feminicídios, no entanto, não houve redução. Foram 35 mulheres assassinadas em 2022 e o mesmo número em 2023. Para que o leitor compreenda é importante deixar claro que só se considera feminicídio (e não apenas um assassinato de mulher) o crime praticado em razão da condição de sexo feminino, em situação de violência doméstica ou familiar ou com menosprezo ou discriminação à condição de mulher.
O hercúleo desafio de proteger as mulheres brasileiras precisa ser compartilhado por toda a sociedade. O trabalho realizado pelas polícias e pelo sistema de justiça criminal é imprescindível, mas precisa ser acompanhado de um intenso e maciço engajamento social. Obviamente, pesquisas científicas mais aprofundadas são muito bem-vindas, mas um olhar rápido e superficial no perfil dos assassinos já permite algumas conclusões.
No dia 17/05/2023, o estudante de Direito Mateus Stein, de 24 anos, foi preso por ser o suspeito de matar sua namorada, Ana Carolina Rocha Kurth, com mais de 40 facadas, em Vitória. O relacionamento, a exemplo do que ocorreu com Iris, teria sido marcado por violência e abusos.
Em novembro de 2023, Fabrício Gomes da Silva Junior, de 25 anos, asfixiou até a morte sua namorada, Thalita Vitória Pereira Barbosa da Silva, de 20 anos, em Colatina. Após o feminicídio, Fabrício escondeu o corpo em uma caixa d’água.
Para nos limitarmos a um último exemplo (há inúmeros outros), vou citar o caso do estudante de odontologia, de 22 anos, Nicolas dos Santos Peruzo, que em novembro de 2023 atirou contra sua namorada, Tayná Roberta, de 26 anos. O crime ocorreu em Vila Velha.
Em todos os casos brevemente relatados temos crimes praticados em circunstâncias de privacidade do casal, o que impede ou dificulta a ação antecipada da polícia. Também temos uma coincidência que precisa ser observada para que a sociedade supere o desafio de diminuir a ocorrência desses crimes bárbaros. Homens jovens, muitas vezes de classe média, estão se valendo única e exclusivamente da violência para a resolução de seus problemas e suas questões afetivas.
Íris Rocha de Souza, de 30 anos, enfermeira grávida morta em Alfredo Chaves
Íris Rocha de Souza, de 30 anos, enfermeira grávida morta em Alfredo Chaves Crédito: Redes Sociais
Não vou me atrever a apontar as causas desse fenômeno, uma vez que não sou especialista no assunto, mas é possível deduzir que há uma classe de jovens sendo formada sem qualquer resistência às frustrações, que se vale da violência quando se sente afrontada ou rejeitada e, pior, que se acha superior e/ou proprietária de suas mulheres. Isso precisa mudar! Passou da hora de darmos um basta nesse cenário!
Como disse, o desafio é hercúleo. É preciso educar as crianças e os jovens para que a cultura do machismo e da violência deixe de prevalecer em nossa sociedade. Tenho visto muitas campanhas e até mesmo legislações que buscam desenhar o óbvio: “Não é não!” Essa cultura precisa ser expandida. Famílias e escolas precisam conscientizar as crianças de que violência não é meio de resolução de problemas. E mais: as mulheres e suas vontades precisam ser respeitadas. É preciso mudar esse cenário de barbárie para alcançarmos a civilização.

Eugênio Ricas

É superintendente regional da Polícia Federal no Espírito Santo, ex-secretário da Justiça e ex-secretário de Controle e Transparência do Espírito Santo, mestre em Gestão Pública pela Ufes

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Imagem BBC Brasil
Brasileiro mostra como é morar em favela chinesa pagando R$ 30 de aluguel: 'Minha viagem nunca acabou'
Imagem de destaque
Como Trump recuou e ganhou mais tempo para negociar acordo com o Irã
Imagem de destaque
Duas brasileiras, uma adolescente e uma idosa, estão entre baleados em ataque nas pirâmides do México

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados