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Coronavírus

Fadiga da pandemia abate os portugueses durante segunda onda

Governo adotou toque de recolher em 121 cidades durante pelo menos as próximas duas semanas, mas muitas pessoas vão encontrando as suas próprias razões e desculpas para não seguir regras sanitárias

Publicado em 10 de Novembro de 2020 às 04:00

Públicado em 

10 nov 2020 às 04:00
Fernando Manhães

Colunista

Fernando Manhães

fernandomanhaes@prix.com.br

Vista área de Lisboa, capital de Portugal
Vista área de Lisboa, capital de Portugal Crédito: Luiz Barucke/ Flickr
O agravamento da pandemia da Covid-19 levou a um novo endurecimento das restrições por toda Europa. A segunda onda do vírus não deixou praticamente ninguém de fora. Entretanto, os níveis de contágios são distintos, não sendo possível fazer uma comparação precisa da eficácia das medidas tomadas pelos diversos países. No caso português, é evidente o cansaço causado pelas medidas anticovid, principalmente pela longa quarentena na primeira onda, o que levou muitos portugueses a esquecerem as cautelas necessárias.
Por ter feito uma quarentena correta e ter obtido um resultado importante no achatamento da curva epidemiológica na primeira onda, há um sentimento entre os portugueses de que o sacrifício não foi tão produtivo, quando se olham os números de casos aumentando neste momento, na segunda onda. De uma forma ou de outra, os distanciamentos sociais e a utilização de máscaras em todos os ambientes vêm perdendo força e já não há o mesmo cuidado da primeira onda da pandemia. Sem falar da circulação das pessoas. As atividades comerciais estão em recuperação, os transportes, escolas, universidades em funcionamento e as pessoas parecem querer levar a vida normalmente.
Do ponto de vista econômico, Portugal é uma das economias mais vulneráveis da União Europeia. Muito dependente do bloco. Pelo o que se vê, Portugal adotou novamente o estado de emergência seguindo uma tendência na Europa e está entre a cruz e espada: ou adotava medidas mais radicais no cerceamento da circulação das pessoas ou adotava medidas mais brandas e um controle mais a distância, dando mais fôlego ao setor econômico. Parece que esse último foi o caminho escolhido pelo governo socialista de Antonio Costa, com toque de recolher durante pelo menos as próximas duas semanas das 23h às 5h nos dias úteis e a partir das 13h aos sábados e domingos, nas 121 cidades portuguesas mais afetadas pela pandemia.
O fato é que muitos economistas acham prematuro atribuir um cenário de piora significativa da economia, sem saber exatamente quais medidas deverão ser adotadas pelo governo no futuro. Até mesmo a hesitação em decretar o estado de emergência novamente faz com que muitos temam pelo pior. Um afrouxamento das medidas neste momento e logo ali na esquina, no máximo em 30 dias, e um novo e severo lockdown seria desastroso, pois estaremos em pleno dezembro, inviabilizando totalmente o período natalino.
A fadiga portuguesa também pode ser explicada pela banalidade dos fatos e o enfrentamento do medo. Segundo o psicólogo Miguel Ricou, em março a pandemia era totalmente desconhecida e havia um discurso global e hegemônico por parte das autoridades de saúde de Portugal. “O medo funcionou. Hoje, as pessoas já não lidam com algo desconhecido. Há uma sensação de que se conhece já o vírus, o que não assusta tanto”. Sem contar que muitas pessoas vão encontrando as suas próprias razões e desculpando-se, que é um pouco como uma gripe, e que todos haveremos de ter. E é exatamente aí que mora o perigo. Segundo dados da Direção Geral da Saúde (DGS), 68% dos contágios em Portugal acontecem no meio familiar.

Fernando Manhães

É publicitário e escreve sobre suas experiência em Portugal, com foco em consumo e sustentabilidade.

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