Sempre gostei do outono em nosso hemisfério, desse período que vai de março a junho, após o calor infernal do verão, ou das chuvas torrenciais que costumam provocar desastre e inundação. Em abril, após as “chuvas de março fechando o verão”, a natureza nos brinda com os frutos, os pássaros entram no período da muda, silenciam-se e se alimentam com as sementes dos campos e os frutos do outono, que os fortalecerão para uma nova temporada de reprodução, quando vier a primavera.
Este abril que se finda, no entanto, foi diferente. O mundo inteiro parou, em reclusão domiciliar, temeroso de um inimigo invisível, vindo da China, que rapidamente se espalhou pelo mundo e está acabando com a vida de milhares de pessoas e desestabilizando a economia mundial. Não sabemos quando tudo irá passar e muito menos como ficará o mundo, após essa pandemia que alterou hábitos, comportamentos e relações sociais. “Não há males que sempre durem e nem bens que nunca acabem”, diz a sabedoria popular e é verdade.
T. S. Elliot (1888-1965), poeta inglês de origem norte-americana, publicou, em 1922, “A Terra Devastada”, sua obra-prima. Pelo conjunto da obra, ganhou o Prêmio Nobel de Literatura, em 1948. “A Terra Devastada”, ou em seu nome original “The Waste Land”, pode ser lido como se tivesse sido escrito para os dias atuais.
Embora o texto tenha sido interpretado por muitos críticos como uma criação poética sobre o niilismo da vida moderna, ou um ceticismo diante da destruição da Europa após a I Guerra Mundial (1914-1918) e a Gripe Espanhola (1918-1919), o sentimento que nele perpassa, o da morte de um tempo ou de um tipo de vida, é o que nos domina hoje.
A primeira parte, intitulada “O Enterro dos Mortos”, assim se inicia: “Abril é o mais cruel dos meses, concebendo/ Lilases de terra entorpecida confundindo/Memória com desejo despertando/ Lerdas raízes com as primeiras chuvas”. O poema é longo, traz muitas referências a outras realidades, mas como não associar esse “O Enterro dos Mortos” e “Abril é o mais cruel dos meses” às cenas trágicas divulgadas em imagens que percorreram o mundo de caminhões do exército italiano carregados de corpos?
Às covas rasas abertas às dezenas, ou centenas, em cemitérios improvisados em terrenos de lamas pretas ou vermelhas, em Nova Iorque, Manaus, Recife ou São Paulo? Em hospitais sobrecarregados de pacientes, necessitando de um aparelho para respirar, vendido pela China, ela mesma, a preço de leilão, para quem der mais?
São duzentos mil mortos pelo mundo, em pouco mais de um mês, mais de três mil no Brasil, e não se trata apenas de mais uma gripezinha, subestimada por um capitão idiota levado ao poder. Quando tudo isso passar, diante da “Terra Devastada”, depois de sepultados os mortos, (“Nunca pensei que a morte aniquilasse tantos”), só nos caberá perguntar como Eliot: “O cadáver que plantou ano passado em seu jardim/ já começou a brotar?”. E a vida renascerá, na primavera?