Já estamos há dois anos sofrendo com essa pandemia, milhares de pessoas morreram, as vacinas chegaram, mas muita gente se recusa a tomá-las ou a vacinar os filhos. 30% da população brasileira não foram vacinados e apenas 20% das crianças o foram. São números assustadores, pois direcionam para a permanência dessa peste entre nós, indefinidamente. Parece que a OMS vai mudar o status da Covid-19 para endemia, ou seja, mais uma doença com a qual teremos de conviver e contra a qual deveremos nos prevenir, anualmente.
Além das consequências econômicas terríveis que trouxe ao mundo como desemprego, inflação, concentração de riqueza, no Brasil estamos sentindo os efeitos maléficos desse período tétrico na educação, sobretudo a das crianças. A ONG “Todos pela Educação” lançou uma nota técnica sobre os “Impactos da pandemia na alfabetização de crianças” e confirmou o que já temíamos: criança fora da escola não aprende a ler.
Ensino remoto, teleaula, conteúdos digitais e ausência física do professor não funcionam para crianças que estão aprendendo a ler. A pesquisa feita pela ONG citada diz que, entre 2019 e 2021, mais de 66% das crianças de 6 e 7 anos não sabiam ler e escrever. O resultado da pandemia sobre a educação brasileira evidencia que, em 2021, 41% das crianças dessa faixa etária não aprenderam os rudimentos da leitura e da escrita, um número que equivale a 2,5 milhões de estudantes. Muito triste e preocupante.
Todos nós sabemos que, sem a aquisição da leitura e da escrita, essas crianças terão toda a sua trajetória escolar prejudicada, pois não conseguirão desenvolver outras aprendizagens das etapas seguintes, aumentando o risco de reprovação, de evasão e de abandono escolar.
Prefeitos e secretários de Educação estão preocupados com isso e várias prefeituras desenvolveram projetos para melhorar o aprendizado dos estudantes, recuperar essa defasagem e fortalecimento da aprendizagem, numa tentativa de recuperar o tempo perdido. Tomara consigam, mas tememos que possa ser uma guerra parcialmente perdida.
Normalmente, já é difícil alfabetizar. Uma criança leva dois ou três anos para adquirir uma base satisfatória para leituras de texto simples e mais tempo ainda para escrever pequenos textos, coesos e coerentes. Gramaticalmente corretos, precisam de mais tempo ainda. Há alunos que saem do Ensino Fundamental, após nove anos de escolarização, sem saber diferenciar o “há” para indicar passado e o “a” para futuro. ‘Fui há pouco’ e ‘irei daqui a pouco’ parecem uma equação indecifrável para muitos usuários da nossa sofrida língua portuguesa. Nas redes sociais, eliminaram acento, sinal de crase, o ‘r’ do infinitivo, o ‘d’ do gerúndio e por aí vai. O ‘tamujuntu’ não é apenas uma expressão costumeira do dialeto coloquial dos tempos atuais, mas uma amostra de todo um universo linguístico simplificado para se comunicar nos canais eletrônicos.
Confesso que vivi e sonhei com tempos outros. Como professor há 49 anos, alfabetizador desde os 12, acreditava que a leitura da palavra propiciaria a leitura conjunta do mundo, paulofreireanamente, mas acho que voltamos à idade da pedra, lascada ou polida não importa, e não vejo nada saudável crianças pequenas usuárias de redes sociais, com páginas em Facebook e Instagram, penduradas em celular 24 horas por dia, antissociais, enlouquecidas com games violentos em que o principal objetivo é matar todo tipo de alienígena que invadir a Terra. Sou do tempo do Sítio do Pica-pau Amarelo, do Pedrinho e Narizinho e da Emília bagunceira. Só falta alguém me dizer: "ce já era". Desse jeito rs