Cidades e instituições têm a sua memória registrada em documentos e objetos, como estátuas, bustos, bandeiras, broches, vestes e, mais recentemente, logomarcas e outros signos visuais. A Academia Espírito-santense de Letras é uma instituição centenária, fundada por jovens escritores capixabas em 1921.
Durante mais de 50 anos, não teve uma sede própria, só a obtendo com a doação do professor Kosciuszko Barbosa Leão (1889-1979) e de sua esposa, Laura Madeira de Freitas, após a sua morte. Não tiveram filhos e, dotados de grande generosidade e de verdadeiro espírito cristão, doaram a sua casa, onde viveram harmoniosamente por muitos anos, para ser a sede definitiva da Academia Espírito-santense de Letras, entidade que ele amava, tendo sido o primeiro ocupante da cadeira 36.
O professor Kosciuszko Barbosa Leão era bacharel em Direito, advogou em várias comarcas, foi jornalista militante, um dos fundadores do Ginásio São Vicente de Paulo, professor catedrático e diretor da Faculdade de Direito, que lhe conferiu o título de professor emérito.
A Faculdade de Direito, fundada em 1930, foi um dos núcleos da Universidade do Espírito Santo, criada em 1954, a atual Ufes, federalizada em 1961. Faleceu em Vitória, em 20 de maio de 1979, aos 80 anos e, por sua doação, a sede da Academia Espírito-santense de Letras é conhecida como a “Casa Professor Kosciuszko Barbosa Leão”.
Na AEL, existem vários objetos que pertenceram ao professor, muitos livros, estantes antigas de madeira, discos com seus discursos de paraninfo, um fichário com as suas fichas didáticas e, o mais precioso, um busto de bronze que lhe foi ofertado pelos acadêmicos, como reconhecimento a sua doação.
Esse busto foi feito pelo artista italiano Carlo Crepaz, responsável pelas principais obras artísticas do nosso Estado, como a estátua de Dona Domingas, na escadaria do Palácio Anchieta, e a belíssima Pietá no Convento da Penha. Por isso, ela tem um valor histórico e cultural inestimável, pois trata-se de obra única, artística, sem valor material.
Além do bronze do Prof. Kosciuszko, também tínhamos ali o de Saul de Navarro (1890-1945), jornalista atuante e escritor capixaba, o maior conhecedor da literatura ibero-americana de seu tempo, um dos pioneiros da AEL e doador da biblioteca que tem o seu nome, após a sua morte. Na época, tratava-se de uma das maiores bibliotecas com obras de autores latino-americanos, infelizmente, a maioria perdida, após a AEL ter sido desalojada de sua sede no Ed. Ruralbank, em 1963. Nessa época, seu busto, também confeccionado por Carlo Crepaz, foi furtado e recuperado por Renato Pacheco e outros acadêmicos, após buscas que resultaram frutíferas.
Na madrugada do dia 3 para 4 de agosto, meliantes entraram em nossa sede, arrombaram a porta lateral e furtaram vários objetos: torneiras das pias, cafeteiras elétricas, um frigobar recém-adquirido, placas e medalhas, uma sineta, e os dois bustos de bronze acima listados.
Para nossa alegria, o busto do professor Kosciuszko foi recuperado, acidentalmente, uma semana depois, quando quatro meliantes desciam o Morro do Moscoso com um saco nas mãos e se depararam com a patrulha da Polícia Militar. Assustados, fugiram, jogando o saco no chão. O choque provocou ligeiros danos ao objeto, mas nada que não possa ser sanado pelas mãos hábeis de um artista como o Hipólito.
Infelizmente, o busto de Saul de Navarro ainda não foi recuperado, mas esperamos que o seja, em breve. É preciso que a polícia atue vigorosamente contra ferros-velhos irregulares, os principais receptadores de metais, cujo furto tem dado tanto prejuízo à memória de nosso Estado e à vida de nossa população.