Os cursos superiores foram criados, no Brasil, apenas após a vinda de D. João VI, em 1808, e a transformação do Brasil em Reino Unido ao de Portugal e Algarve. Enquanto na América Espanhola e nos Estados Unidos as universidades surgiram desde o século XVI, as primeiras universidades brasileiras, que reuniam faculdades e escolas de formação superior isoladas, surgiram, somente, no século XX.
A USP, a mais bem rankeada universidade brasileira, por exemplo, só foi criada em 1934. Aqui, no Espírito Santo, a primeira faculdade, a de Direito, surgiu em 1930; em 1954, criou-se a Universidade do Espírito Santo, reunindo algumas faculdades isoladas, federalizada em 1961, graças à atuação do então senador capixaba Dirceu Cardoso.
Desde a sua criação, os cursos superiores, no Brasil, destinavam-se à formação da elite. No século XIX, os cursos de Direito em São Paulo e Olinda e os de Medicina, na Bahia e no Rio de Janeiro, eram destinados a homens ricos e brancos. Apenas no século XX, as mulheres chegaram às universidades, e um ou outro preto conseguiu furar o bloqueio do racismo estrutural desde sempre em vigor em nosso país.
Com a implantação do sistema de cotas, a partir de 2012, essa situação mudou radicalmente com a entrada de alunos da escola pública, de jovens pretos e indígenas nas universidades. E isso incomoda às elites, que sempre receberam ensino gratuito de qualidade e viram perder parte desse privilégio.
Quando fiz curso superior, na década de 1970, tive de estudar em faculdades particulares, pois era pobre, sem pai e mãe, e tinha de trabalhar. Comecei a dar aulas, no mesmo ano em que entrei no curso de Letras, em 1973, para pagar meus estudos. Trabalhava de dia e estudava à noite. Não havia curso noturno nas universidades públicas, na época, porque elas não foram feitas para quem trabalhava. Também não havia pós-graduação no ensino público.
Meu primeiro curso foi na PUC-MG, pago, e só consegui finalizá-lo com a ajuda financeira de uma alma caridosa chamada Irmã Júlia, que quitou minha dívida para poder concluir o curso de Especialização em Língua Portuguesa, o que me permitiu entrar no concurso público para professor da Ufes, em 1982, classificado em primeiro lugar.
Ao entrar na universidade como professor, nesse mesmo ano, dava aulas de português para alunos iniciantes e todos, sem exceção, eram brancos e da classe média para cima, principalmente nos cursos de Medicina, Odontologia, Engenharia, Arquitetura e Direito. Nas Licenciaturas, havia pobres e pretos, pois ser professor, no Brasil, sempre foi uma profissão destinada a eles. Como professor universitário, consegui fazer mestrado e doutorado na UFMG e ser um dos criadores do Programa de Pós-Graduação em Letras da Ufes, em 1994.
No governo Bolsonaro, as universidades têm sofrido constantes cortes e bloqueios no orçamento. Há uma política clara de desmonte das universidades públicas. O mais recente decreto presidencial bloqueou R$ 2,4 bilhões do orçamento do Ministério da Educação, provocando impactos terríveis nos serviços de assistência estudantil destinados aos mais carentes, como bolsas de estudo, auxílio-alimentação ou moradia, transporte, internet, custeados pelos Ifes e Cefets, ajudas essenciais para a manutenção de seus estudos.
Este governo quer acabar com as universidades públicas, pois elas são polos de conhecimento, de pesquisa e de extensão. No ranking das 20 melhores universidades brasileiras, 18 são públicas. A área da educação sofre cortes sistemáticos no desgoverno atual. Os gastos com construção de creches caem fortemente, desde 2019. Em 2018, foram investidos R$ 495 milhões em creches; em 2021, R$ 101 milhões.
No orçamento de 2023, prevê-se a retirada de R$ 1 bilhão da educação básica. O Movimento Todos pela Educação destaca que os recursos destinados à Educação Infantil caem de R$ 151 milhões para R$ 5 milhões, uma queda de 96%. É claro o projeto bolsonarista de desmonte da educação em todos os níveis. Povo sem educação é rebanho fácil de ser conduzido.