Ontem foi Dia das Mães, ou, como se diz em Portugal, Dia da Mãe, porque mãe só se tem uma, na irrefutável lógica portuguesa. No entanto, para muitas delas não foi um dia alegre e festivo, como deveria ser. Vivendo um período trágico de nossa história, com a pandemia de coronavírus tendo matado mais de 415 mil pessoas, muitas mães perderam seus filhos e muitos filhos perderam suas mães.
Não há muito o que comemorar. Penso também como deve ter sido triste o dia de ontem para a mãe do ator Paulo Gustavo, que vivia o auge de sua carreira com suas representações de “Minha Mãe é uma Peça”, e que nos deixou precocemente, vítima dessa doença terrível. Não, imbecil, não é uma gripezinha.
Também imagino a dor e o sofrimento das mães das três crianças e das duas jovens professoras assassinadas, brutalmente, na creche em Santa Catarina. Da tristeza infinita da mãe que perdeu a filha, morta por um bêbado ao volante, na Darly Santos. Ou do desamparo eterno da pequena de dois anos, que teve a mãe assassinada em sua casa em Barramares, Vila Velha.
Infelizmente, são inúmeros os casos de violência e de morte de mulheres em nossa pátria amarga, Brasil, visto que nosso país é considerado um dos mais violentos do mundo. O crime de feminicídio é previsto no Código Penal desde 2015, mas o assassinato de mulheres cresce diariamente no Brasil. Somente na primeira metade de 2020, foram mortas em nosso país 648 mulheres, a maioria afrodescendente e vivendo em desigualdade social.
O Brasil tem o terceiro maior número de mortes de mulheres no mundo, só perdendo para a Índia, com 10,7 mil mortes e a Nigéria, com 6,4 mil e seguido pelo Paquistão, com 4,4 mil mortes. E o perfil dos matadores é o mesmo: são homens que não admitem a autonomia, a igualdade e a liberdade das mulheres. São machistas violentos, que querem a domesticação e o afastamento das mulheres da vida pública; usam a violência física, psicológica, moral, sexual e patrimonial contra mulheres e seus filhos até o extremo, que é o ato do feminicídio.
Por outro lado, muitas mulheres se vestem de roupas verdes e amarelas e desfilam com bandeiras brasileiras, em passeatas patéticas, apoiando um presidente declaradamente misógino, machista, racista, que alardeia o estupro e incensa torturadores do passado. Como entender isso? Será a síndrome de Estocolmo? Fico entristecido ao ver ex-colegas professoras clamando pela volta da ditadura, apoiando o golpe militar e incentivando o fechamento do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal. Fico estarrecido ao ver que as pesquisas eleitorais indicam estar esse presidente genocida à frente na corrida eleitoral de 2022.
Enfim, vivemos tempos de obscuridade. Espero viver o suficiente para ver a luz no fim do túnel. E minha homenagem às mães que ainda puderam comemorar o dia de ontem com os filhos é com essa citação de Mário de Andrade: “Existirem mães Isso é um caso sério. Afirmam que a mãe Atrapalha tudo, É fato, ela prende Os erros da gente, E era bem melhor Não existir mãe. Mas em todo caso Quando a vida está Mais dura, mais vida, Ninguém como a mãe Pra aguentar a gente Escondendo a cara Entre os joelhos dela. – O que você tem?… Ela bem que sabe Porém a pergunta É pra disfarçar”.