Hoje é um dia solene e festivo na Academia Espírito-Santense de Letras. Ao mesmo tempo em que saudamos a passagem para o plano espiritual do Prof. Aylton Rocha Bermudes (1921-2021), que nos deixou há poucos dias, e era nosso decano e conosco conviveu por muitos anos com sua serenidade, fidalguia, nobreza de caráter e vasta cultura, elegeremos, também um novo acadêmico para suceder ao inesquecível querido poeta Sérgio Blank, que nos deixou, tragicamente, em julho do ano passado, apenas um ano após a sua posse.
Doze candidatos se inscreveram à vaga da cadeira nove, mas apenas sete candidaturas foram homologadas pela comissão analisadora dos documentos, da qual participei, juntamente com Álvaro José Silva e Jorge Elias Neto. Pela primeira vez na história da Academia Espírito-Santense de Letras, a eleição não será em reunião presencial, mas virtual, pela plataforma Zoom.
Também pela primeira vez, faremos uma eleição utilizando ferramenta eletrônica, usando a expertise do acadêmico, professor e advogado Anaximandro Amorim. Esse tipo de eleição não está previsto em nosso estatuto, elaborado antes de isso existir, bem como as reuniões feitas on-line. Ele, como advogado, nos informa que, se o estatuto não proíbe, nada obsta que ocorra. Portanto, vamos às modernidades. Viver é ir em frente.
Afonso Claudio de Freitas Rosa (1859-1934) foi o primeiro acadêmico da AEL, escolhido para a cadeira 01, e sua posse ocorreu em 1924. Em seu discurso, homenageou o Patrono de sua cadeira, o Padre Marcelino Pinto Ribeiro Duarte (1788-1860), a quem comparou ao Padre Feijó e a José Bonifácio, os maiores “homens públicos” de sua época, a seu ver.
De lá para cá, foram 141 acadêmicos que assumiram suas cadeiras de acadêmicos na AEL, cada qual com uma característica própria na maneira de ver o mundo e de a refletir nos seus escritos, nas diferentes modalidades que a arte literária coloca à sua disposição: artigos, ensaios, cartas, discursos, poemas, contos, crônicas, romances, novelas, literatura infantojuvenil, blogs, diários, memória, textos dramatúrgicos e tantos outros. A literatura é vasta como o mundo e a capacidade de o ser humano nele habitar e por meio dela recriá-lo.
Assim, não somos uniformes, homogêneos, restritos a uma ideologia e a um comando, como devem ser partidos políticos e quartéis. Também não somos neutros a tudo que nos cerca, pois a Academia é uma entidade viva, suscetível às mudanças, às transformações, às ideias que nos cercam.
O dia de eleição na AEL sempre foi festivo, e exercemos com seriedade e dedicação o direito de escolher alguém que será nosso confrade ou confreira pelo resto da vida, posto que vitalício. Creio que todo candidato à AEL deveria ter o espírito acadêmico de nosso modelo primeiro, Afonso Claudio, um espírito corporativo, de agremiação e de agregação, que a palavra “academia” evoca.
Academia, desde Platão, pressupunha uma associação de pessoas com o mesmo fim. E, nesse aspecto, a atuação de Afonso Cláudio foi essencial para se criar entre nós, capixabas, um sentido de amor à terra, de interesse pelo nosso passado e por nossa história, o que despertou para uma busca de sentido e para o nascimento da nossa identidade.
Ele teve o papel pioneiro de desbravador desse sertão ignoto, convocando seus pares a pensar o Espírito Santo. Numa época de individualismo e de narcisismo exacerbados, precisamos escolher os que colocam o Espírito Santo e sua cultura em primeiro lugar, e não ele mesmo. Missão nada fácil.
*Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta