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Despedida

Jeanne Bilich saiu da vida à francesa, pela porta da frente, sem esbarrar em ninguém

Na minha última visita a ela, pouco dias antes de partir, fui presenteado com o livro “Tempos Fraturados”, de Eric Hobsbawm, um de seus pensadores preferidos. Jeanne nos ajudava a pensar o zeitgeist, o espírito do tempo

Publicado em 11 de Abril de 2022 às 02:00

Públicado em 

11 abr 2022 às 02:00
Francisco Aurelio Ribeiro

Colunista

Francisco Aurelio Ribeiro

faribe@gmail.com

Data: 14/01/2020 - ES - Vitória - Jeanne Bilich, jornalista - Editoria: Caderno Dois - Fernando Madeira - GZ
Jeanne Bilich, jornalista, em 14 de janeiro de 2020 Crédito: Fernando Madeira
Nesta segunda (11), na sessão ordinária da Academia Espírito-santense de Letras, será feita a homenagem à confreira Jeanne Bilich, a sessão da saudade que se faz na primeira reunião após a morte do acadêmico. Jeanne nos deixou rapidamente, após ser diagnosticada com câncer nos pulmões, em 15 de janeiro deste ano. Foi declinando rapidamente, recusou tratamento de quimioterapia e se foi no dia 27 de março, saindo da vida à francesa, pela porta da frente, sem esbarrar em ninguém.
Jeanne era assim, uma figura ímpar. Não pode ser comparada a nada e a ninguém. Abriu seu caminho de jornalista e de advogada num mundo machista, nos anos 70. Com a inauguração da TV Gazeta, em 1976, estreou no veículo televisão apresentando o jornal “Hoje”, edição local. Sua voz grave e seu rosto aparentemente angelical marcaram a geração de capixabas que assistiu a esse jornal da hora do almoço. Naquele tempo, era uma crônica de ‘fait divers’, como dizem os franceses, e não o jornal de ocorrências policiais dos dias de hoje. Mais tarde, Jeanne apresentou diversos programas na TV Educativa e na TV Vitória. Nessa última, comandou a revista jornalística “Espaço Local” de 1989 a 1999 e, a seguir, estreou como “âncora” no Jornal da TV Vitória.
Jeanne Bilich estreou no rádio em 1978, apresentando os noticiosos da Rádio Espírito Santo e, nos anos 80, atuou na Rádio Gazeta AM e posteriormente na CBN. Em 2000, estreou na mídia eletrônica como colunista do jornal eletrônico seculodiario.com, tendo, paralelamente, escrito reportagens especiais para as revistas Século e Essa. Foi assessora de Comunicação da FCAA, instituição de apoio à Ufes, de 2003 a 2012 e, em 2007, passou a escrever crônicas para o jornal A Gazeta. Em 2013, foi eleita para a cadeira 7 da AEL, tendo tomado posse em setembro do mesmo ano, em concorrida sessão realizada na Biblioteca Pública Estadual. Recebeu vários prêmios e homenagens, como Cidadã Vitoriense, Comenda João Santos Filho e Medalha Eugênio Pacheco de Queiroz.
Como escritora, é autora de diversos artigos e ensaios publicados em coletâneas, livros, revistas e sites: "A Múltipla Presença – Vida e Obra de Amylton de Almeida", "Virando o XXI, Escritos do Espírito Santo", "A sociedade do espetáculo: pós-modernismo & mídia", "As múltiplas trincheiras de Amylton de Almeida: o cinema como mundo, a arte como universo", sua dissertação de mestrado em História Social, publicada em 2005, "Escritos de Vitória" e os livros de crônicas "Zeitgeist – Espírito do Tempo" e "Viajantes da Nave Tempo".
Em sua última década de vida, Jeanne recolheu-se em seu apartamento, o ‘castelo da bruxa’, como dizia, irônica e afetivamente, compartilhando sua vida e sua mente brilhante com poucos e caros amigos. Afastou-se da vida social, pois dizia que esteve exposta durante tanto tempo, que se dava o direito de se isolar com seus livros, filmes, discos e seus cadernos de registrar a vida, importante documento que legou à história capixaba dos últimos 50 anos. Esse material, conforme seu desejo, foi doado ao Arquivo Público Estadual e será disponibilizado a pesquisadores e para publicação, no futuro.
Jeanne saiu do salão da vida de fininho, discretamente, e nos deixou a procurá-la, para continuarmos o papo sobre literatura, política, atualidades, sempre nos enriquecendo com sua argúcia, extraordinária cultura e acuidade na visão de mundo sobre os tempos obscuros em que vivemos.
Na minha última visita a ela, pouco dias antes de partir, me presenteou com o livro “Tempos Fraturados”, de Eric Hobsbawm, um de seus pensadores preferidos. Pedi a ela que me esperasse voltar de viagem e lhe perguntei o que gostaria que lhe trouxesse de lembrança, como sempre o fiz. Ela me respondeu, com um fio de sua voz grave, mas totalmente lúcida: “Uma urna para minhas cinzas, Mahatma”, como gostava de me chamar.
Não pude lhe satisfazer o pedido, pois partiu enquanto viajava. Suas cinzas serão nas montanhas capixabas, na casa dos amigos, onde viveu bons momentos dos seus últimos dias. Jeanne e sua presença iluminada nos deixa órfãos de sua luz, neste mundo cada vez mais dominado pelo ódio e pelas mentiras, nas redes sociais, pela violência do cotidiano e pelo desumanismo das grandes diferenças sociais.
Jeanne nos ajudava a pensar o zeitgeist, o espírito do tempo. O Espírito Santo perdeu uma de suas maiores intelectuais, que nunca se prendeu a nenhum grupo intelectual, político, cultural, pois prezava, acima de tudo, a liberdade. Dela, podemos dizer como Kavafis, um dos seus poetas preferidos, no poema “Ítaca”, emoldurado em sua parede: “Ítaca deu-te a bela viagem. Sem Ítaca não terias saído ao caminho. Agora, já nada tem para te dar”. Obrigado, Jeanne, e bom regresso a Ítaca.

Francisco Aurelio Ribeiro

É doutor em Letras, professor e escritor. Seus textos tratam de literatura, grandes nomes do Espírito Santo e atualidades.

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