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Memória afetiva dos livros: não podemos guardá-los para sempre

Mas precisamos conservá-los. A  biblioteca Saul de Navarro da AEL possui uns dez mil títulos de autores capixabas, necessitando, urgentemente, de classificação, de conservação e de digitalização, antes que desapareçam

Publicado em 17 de Julho de 2023 às 00:20

Públicado em 

17 jul 2023 às 00:20
Francisco Aurelio Ribeiro

Colunista

Francisco Aurelio Ribeiro

faribe@gmail.com

Centro de Vitória
O prédio da Academia Espírito-Santense de Letras Crédito: Divulgação
Meu amor pelos livros e pela leitura se iniciou aos seis anos, quando fui alfabetizado. Minha casa tinha poucos livros e o primeiro que li, integralmente, foi a “História Sagrada”, ilustrada, a famosa Bíblia dos Pobres. Creio que foi um bom início, pois ainda sei de cor as histórias dos personagens judeus que marcam o imaginário dos cristãos.
Aos poucos, meus pais, vendo meu interesse por livros, foram me presenteando com os clássicos da literatura infantil e passei a conhecer os contos de Andersen, dos irmãos Grimm e de Perrault. Quando ganhei o “Viagens de Simbad, o Marujo”, aprendi a gostar não só dos livros, mas também das viagens em busca do desconhecido.
Aos dez anos, perdi o pai, mas ganhei de presente de minha mãe o “Tesouro da Juventude”, em 36 volumes, o Google de nossa época. Claro que isso não substituiu a ausência dele, mas me consolou na tristeza. Foi o melhor presente material que já ganhei na vida.
Minha primeira biblioteca durou uns quinze anos e devia ter uns 500 volumes, quando tive de me separar dela para ir morar em Cachoeiro, para fazer faculdade. Foi doada a uns primos de Celina e com eles ficaram os livros que marcaram minha infância e parte da juventude. Tomara lhes tenham sido úteis. Várias vezes, pensei ir lá, para os rever, mas resisti.
A partir daí, reiniciei outra biblioteca, já professor de língua e de literatura. Uma parte de meu salário, ainda que parco, era investido em livros. Em alguns anos, os livros passaram de centenas, chegando aos milhares. Doei muitos, quando fundamos o Programa de Pós-graduação em Letras, pois a Capes exigia para reconhecimento um determinado número de livros na biblioteca.
Isso foi há trinta anos, na mesma época em que entrei na Academia Espírito-santense de Letras. Anos mais tarde, já presidente da AEL, resolvermos arrumar a biblioteca Saul de Navarro e definimos ser ela exclusiva de autores capixabas, de livros produzidos no Espírito Santo ou de relevância histórica para os acadêmicos. Boa parte de meus livros foi para lá, bem como muitos outros, adquiridos em sebos, de autores do passado como Afonso Claudio, Mendes Fradique, Saul de Navarro e Ciro Vieira da Cunha.
Hoje, a biblioteca Saul de Navarro da AEL possui uns dez mil títulos de autores capixabas, necessitando, urgentemente, de classificação, de conservação e de digitalização, antes que desapareçam.
Tenho convivido com a morte de grandes bibliófilos como Renato Pacheco, Miguel Tallon, Ivan Borgo, Aylton Bermudes e, recentemente, Jeanne Bilich, que deixaram grandes bibliotecas, rapidamente desfeitas por filhos e familiares. Antes que seja eu mesmo o lembrado pela “Indesejada das Gentes”, comecei a fazer a distribuição de meus livros, para não deixar para outros esse indesejado mister.
O principal motivo é que, do ano passado para cá, fui homenageado por três escolas, uma em Vila Velha e duas na Serra, com bibliotecas às quais foi dado o meu nome. Decidi, então, doar a cada uma parte do meu acervo bibliográfico e, sem nenhuma tristeza, mas com nostalgia e muita memória afetiva, tenho encaixotado livros que me acompanharam nestes 50 anos de magistério, a maioria de literatura.
Biblioteca, Livros
Biblioteca Crédito: LubosHouska / Pixabay
Cada livro retirado da estante traz à lembrança não só o que li, mas o seu valor, onde foi comprado ou lido, a impressão que me causou sua leitura e como ele formou minha maneira de ser ou de viver. Cada livro que se vai é como um amigo que parte; sabemos que não voltará mais, mas sua lembrança ficará, indelevelmente, marcada em nosso coração e mente.
Assim como não podemos reter a presença física dos amigos que se foram, também não podemos guardar os livros para sempre. Eles também devem partir para outras bibliotecas e cumprir seu destino de encontrar novos leitores. Tomara esses os amem como eu os amei e que lhes deem as alegrias que eles me deram.

Francisco Aurelio Ribeiro

É doutor em Letras, professor e escritor. Seus textos tratam de literatura, grandes nomes do Espírito Santo e atualidades.

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