Há 50 anos, iniciei minha carreira de professor, lecionando no então Colégio Estadual de Guaçuí, na mesma escola onde havia concluído os ensinos fundamental e médio. Tinha 18 anos incompletos, já estava cursando Letras e Direito, em Cachoeiro. Era uma jornada tripla de trabalho: lecionava pela manhã e à tarde e, à noite, ia para Cachoeiro estudar. Não foi fácil.
Naquela época, só quem podia fazer curso superior em universidade pública era a elite, ou quem podia se manter sem trabalhar, pois não havia cursos noturnos para a classe trabalhadora. Somente quando cursos pagos e noturnos foram abertos em Cachoeiro e Colatina, foi possível à classe média estudar. E com muito sacrifício se formar em cursos de baixa qualidade, com professores, geralmente, sem aperfeiçoamento para exercer o magistério no ensino superior.
Não era bom o ensino dado nas escolas públicas em que estudei, pois os professores, em sua maioria, não tinham Licenciatura Plena, nem haviam estudado Didática ou Psicologia. Muitas vezes sabiam o conteúdo que davam, mas não sabiam ensinar. As aulas eram na base do “cuspe e giz”: muita falação e alguma anotação no quadro. Não havia livros didáticos gratuitos, como hoje, e muito menos merenda escolar.
Os “pontos”, como se chamavam os assuntos lecionados, eram ditados, muitas vezes por professores cansados, sentados à mesa, com as pernas esticadas em cadeira para aliviar as varizes, ou passados no quadro para os alunos copiarem. Nas provas, era só repetir o que eles haviam ditado e passar de ano.
Minha aprendizagem de Português e Literatura foi um desastre. Decorávamos conceitos de categorias gramaticais, passávamos anos estudando sujeito e predicado, objeto direto e indireto, adjunto adnominal e complemento nominal, classificação de orações subordinadas e coordenadas, mas não sabíamos ler e escrever. Redação, ou produção de texto, como dizemos hoje, não era dada, pois o professor não tinha tempo para avaliar, comentar, incentivar, corrigir.
Ele pulava de sala em sala, de colégio em colégio, e não sobrava espaço para ler os textos dos alunos. Por isso, não os pedia. A Literatura era dada pela biografia dos autores. Até hoje sei, de cor, a vida e a obra de José de Alencar, Machado de Assis ou Olavo Bilac. Nos onze anos de ensinos fundamental e médio feitos em escola pública, nunca li uma obra de escritor brasileiro ou estrangeiro. Fora da escola, lia muito. Felizmente, naquela época, havia boas bibliotecas nos municípios, por causa do Instituto Nacional do Livro - INL, que as abastecia com acervo atualizado de obras de autores brasileiros. A biblioteca Dr. Custódio Tristão foi a minha salvação! Lá, encontrava livros dos principais escritores brasileiros, tanto os tradicionais quanto os modernistas.
Ao começar a lecionar Português/Literatura, não quis reproduzir o que foram meus professores. Havia um grande espaço para a biblioteca da escola, mas o acervo era péssimo: livros antigos e sujos, a maioria didáticos, velhos dicionários e enciclopédias, um verdadeiro depósito de material descartável, nunca utilizado por professores e alunos.
Comecei a fazer uma campanha de doação de livros, com a ajuda de meus alunos. O slogan era: “Doe para a biblioteca um livro de que gostou”. Não queríamos doação de material imprestável, inútil, como, geralmente, se faz. Não deu muito certo, pois as pessoas não tinham livros de literatura em casa. A maioria das cidades brasileiras não possuía livraria e os que compravam livros o faziam em bancas de jornais, quando as havia.
Livro sempre foi caro, pois a baixa tiragem encarece o produto final. Então, começamos a fazer festas juninas, criamos um jornal, que eu mesmo datilografava e imprimia (meus primeiros investimentos foram a compra de uma máquina de datilografia portátil e um mimeógrafo a álcool) e, com o dinheiro arrecadado, comprávamos, pelo correio, livros de bolso, mais baratos, e, assim, meus alunos leram “Vidas Secas”, “O Quinze”, “Olhai os lírios do Campo”, “Mar Morto”, os clássicos da literatura. E as aulas eram a discussão desses livros, onde eles aprendiam a escrever com os grandes escritores e a interpretar a realidade brasileira. Creio que podemos cantar com o Rappa: “Valeu a pena eh, eh, Valeu a pena, eh, eh, Sou pescador de ilusões”...