Assistimos à posse de Donald Trump, o topetudo 47º presidente dos Estados Unidos da América, e, confesso, há muito não via tanta arrogância, prepotência e soberba na fala de um presidente recém-eleito. Para ele, o restante do mundo não existe, só a América, que ele prometeu de pés juntos fazê-la grande, novamente. Passada a bravata, o que ficará de tanta fanfarronice?
Ninguém é uma ilha, já disse o poeta inglês John Donne, e os Estados Unidos não se teriam tornado a grande nação que são, se não fossem o trabalho dos imigrantes, a destruição dos povos originários e a conquista de seus territórios, além da invasão de tantas outras terras e possessões pelo mundo afora.
Estive no Havaí, há alguns anos, e visitei o Palácio da Rainha Iolani, a última monarca do país, destronada pelos americanos, para tornar o belo arquipélago, antes polinésio, uma colônia de férias dos ricos norte-americanos e uma grande plantação de abacaxis.
Trump é tão topetudo que ameaça seus vizinhos e parceiros, México e Canadá, mudou o nome do Golfo do México e quer comprar a Groenlândia, terra dos povos Inuits, sob proteção da Dinamarca, grande parceira europeia dos norte-americanos. Pretende expulsar todos os imigrantes ilegais de seu país, até mesmo as crianças nascidas ali e, legalmente, cidadãs norte-americanas. Sua xenofobia é tamanha, que não vê o quanto precisa da mão de obra barata desses ‘ilegais’.
Quem vai extrair mais petróleo das profundezas do “Golfo da América”, trabalhar nas chapas das hamburguerias, lavar as privadas, coletar o lixo, ser operário em fábricas insalubres, limpar as mansões dos milionários, a não ser os imigrantes? Quem ele acha que fará a América grande, de novo? Certamente, não serão os seus parceiros miliardários que estavam em sua posse.
Dinheiro não compra tudo, Mr. President, nem amor, nem amizade, nem saúde, nem segurança. Não foi Deus que o salvou do atentado na Pensilvânia, foi um pequeno desvio da bala, que, por um centímetro, não lhe estourou os miolos, como ocorreu ao Kennedy, em 1963. E, talvez a soberba não o deixe enxergar, só se colhe o que se planta.
Há poucos dias, foi enterrado o centenário ex-presidente democrata Jimmy Carter, um plantador de amendoins, que chegou à Casa Branca e lutou pela paz. Homem simples e humilde, conseguiu o que parecia impossível, efetuar um armistício entre árabes-palestinos e judeus, o que lhe rendeu o Prêmio Nobel da Paz. Os outros que lhe sucederam não tiveram a mesma intenção, antes, como senhores da guerra, espalharam mortes por Iraque, Kuwait, Síria, Líbano, Afeganistão, Irã, Iêmen e em tantos outros litígios pelo mundo. Em todas as guerras há armas, combatentes ou interesses norte-americanos envolvidos.
No dia seguinte à sua posse, Trump e sua belíssima esposa, não mais oculta pelo elegante chapéu da cerimônia do dia anterior, juntamente com o vice-presidente e esposa, foram ao culto na Catedral de Washington e tiveram de ouvir um belo sermão da celebrante, a ‘bispa’ Mariann Edgar Budde, que lhe pediu misericórdia e compaixão para com os imigrantes, lembrando também ao arrogante presidente sua intransigência com relação à questão de gênero.
Textualmente, ela lhe passou o seguinte ‘pito’: “Milhões confiaram em você. Como você disse à nação, você sentiu a mão providencial de um Deus amoroso. Em nome de nosso Deus, eu peço a você que tenha misericórdia do povo em nosso país que está com medo agora. Existem crianças gays, lésbicas e transgêneros em famílias democratas, republicanas e independentes, algumas que temem por suas vidas”. Trump ouviu calado, mas, depois, disse que não gostou nem um pouco do sermão da episcopisa, nome correto para ‘bispa’, em português.
Veja Também
Bem-feito! Falou o que quis, ouviu o que não gostaria. Como disse o Papa Francisco, “se Deus não discrimina ninguém, quem sou eu para julgar”? Misericórdia e compaixão são palavras caras aos verdadeiros cristãos como o padre Júlio Lancelotti. São sentimentos que se relacionam com a preocupação e a atenção às pessoas que sofrem. Mais que um sentimento, a misericórdia é uma disposição para agir, enquanto a compaixão está mais relacionada ao sentir pena dos que sofrem. Certamente, essas palavras não fazem parte do universo mental do Trump.
No entanto, cabe acrescentar ao sermão da ‘bispa’ Mariann a seguinte passagem bíblica: “A soberba precede a ruína, e a altivez do espírito precede a queda”. ( Provérbios 16:18). Em bom português, o provérbio que melhor lhe cabe é: “Deixa estar, jacaré, a lagoa vai secar”.