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Literatura

O caso Arariboia: um exemplo das encenações da realidade

Para os estudiosos ou fazedores de Literatura, a verdade é, também, ficção. E, nela, podemos ver, sob forma alegórica ou paródica a verdade que a História, mestra a serviço, quase sempre, do poder, insiste em omitir, distorcer ou disfarçar

Publicado em 04 de Dezembro de 2023 às 01:30

Públicado em 

04 dez 2023 às 01:30
Francisco Aurelio Ribeiro

Colunista

Francisco Aurelio Ribeiro

faribe@gmail.com

História e Literatura são disciplinas irmãs e têm uma origem comum, a oralidade. Ambas são narrativas. A primeira baseia-se em fatos, fontes e documentos; a segunda, no imaginário, embora também possa beber das mesmas fontes. História é conceituada pelo dicionário como um “conjunto de conhecimentos adquiridos através da tradição e ou por meio de documentos, relativos à evolução, ao passado da humanidade”.
Literatura é ficção, uma recriação da realidade por meio da palavra empregada em sentido múltiplo e figurado. Portanto, o que as distingue, em sua essência, é o uso da linguagem e a sua interpretação. Enquanto Literatura é arte e o que a define é o uso estético da linguagem, a História, como ciência, possui como critério a verdade. Mas o que é a verdade? Para os estudiosos ou fazedores de Literatura, a verdade é, também, ficção. E, nela, podemos ver, sob forma alegórica ou paródica, estilizada ou parafrástica, a verdade que a História, mestra a serviço, quase sempre, do poder, insiste em omitir, distorcer ou disfarçar.
Um caso interessante para exemplificar essa diferença, ou aproximação, é o de Arariboia, chefe indígena da etnia temiminó, do século XVI, que marcou seu nome na História por ter-se aliado aos portugueses, no início da colonização portuguesa, sobretudo na luta contra os franceses que haviam tomado a atual Baía da Guanabara, para ali instalar a França Antártica, em 1555.
Temiminós, indígenas da tribo maracajá, ou do gato, viviam em aldeias espalhadas pelas ilhas da Baía de Guanabara, sobretudo na maior delas, hoje, a Ilha do Governador, e viviam em guerra contra os tamoios ou tupinambás, pela disputa de território. Quando os franceses chegaram à região, os tamoios se aliaram a eles, com quem já estavam acostumados a comercializar o pau-brasil. Para sobreviver, os temiminós, liderados pelo cacique Maracajaguaçu, o Gato Grande, pediram auxílio ao donatário do Espírito Santo, que os transferiu para cá.
A guerra entre franceses e portugueses durou cinco anos e, em 1560, Arariboia saiu do Espírito Santo com 200 guerreiros para combater os franceses, comandados por Villegagnon. Depois de muita luta, os portugueses saem vencedores, os franceses se vão e os tamoios são, brutalmente, assassinados.
Dizem os jesuítas, principais historiadores desses fatos, que, por seus atos, Arariboia recebeu o hábito de Cavaleiro da Ordem de Cristo e o posto de Capitão-mor de sua aldeia, do outro lado da baía, a atual Niterói, onde foi erigida imponente estátua como homenagem a sua atuação na fundação do Rio de Janeiro.
Disse frei Vicente do Salvador, na primeira História do Brasil, que Arariboia foi batizado em 1530, tendo como padrinho Martim Afonso de Souza. Por isso, passou a se chamar Martim Afonso Arariboia, nome registrado na escritura das terras que lhe foram concedidas.
Trata-se do único caso existente na história da ocupação portuguesa, no século XVI. Nenhum outro indígena dessa época teve tal distinção, nem mesmo Maracajaguaçu, fundador da atual cidade de Serra, batizado com o nome do donatário Vasco Fernandes Coutinho bem como sua esposa, Branca Coutinho, grande liderança em sua tribo, segundo Maria Stella de Novaes.
Maracajaguaçu e sua tribo foram essenciais para que a Capitania do Espírito Santo existisse. No entanto, só Arariboia, seu sobrinho, ficou para a História. Talvez fosse mais justo renomear a estátua do Forte S. João com o nome de Maracajaguaçu, ou então, fazer-lhe outra em sua homenagem.
Solenidade de lançamento do projeto
Estátua de Arariboia Crédito: Ricardo Medeiros
Ficou no folclore a mudança contínua da estátua de lugar, como mostra a marcha de Carnaval composta, em 1963, por Júlio Alvarenga, intitulada “Bota o índio no lugar”: “Bota o índio no lugar/ Ele quer tomar banho de mar/ Bota o índio no lugar/ Ele é da avenida Beira-Mar; Era Arariboia/ Ele quer voltar pra lá/ Doutor, por favor, Bota o índio no lugar”.
Arariboia foi um vencedor, por isso, a História o imortalizou. Os milhares de indígenas que perderam a vida lutando contra os invasores de sua terra, esses jamais serão nomeados pela História.

Francisco Aurelio Ribeiro

É doutor em Letras, professor e escritor. Seus textos tratam de literatura, grandes nomes do Espírito Santo e atualidades.

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