Muitos escritores têm a sua obra marcada pela cidade em que nasceram. Mais que cenário de fundo para suas histórias ou poemas, a cidade natal aparece como protagonista na obra de muitos deles. É o caso de James Joyce e Dublin, Proust e Paris, Svevo e Trieste, Virginia Woolf e Londres, Philip Roth e Nova York, Machado de Assis e o Rio de Janeiro, Dalton Trevisan e Curitiba, os irmãos Braga e Cachoeiro, João Cabral e Recife, Ohran Pamuk e Istambul e tantos outros.
Quero destacar, aqui, a relação intrínseca de Adelpho Poli Monjardim e Vitória, cidade onde nasceu, em 1903, e morreu, em 2003, três meses antes de completar cem anos. Filho do Barão de Monjardim, que ocupou a presidência do Espírito Santo, no Império e na República, e de Beatrice Poli Monjardim.
Foi romancista, historiador e geógrafo dos mais credenciados do Estado, mesmo sem ter tido instrução universitária. Incursionando na política, foi deputado estadual e, por duas vezes, prefeito municipal de Vitória. Membro do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo e da Academia Espírito-santense de Letras, foi detentor de inúmeras condecorações.
Adelpho Monjardim assim descreve sua infância: “Nasci nesta heroica Cidade da Vitória, no tradicional Bairro da Capixaba, em bela e pitoresca Chácara. Ali vivi até os seis meses de idade, quando acometido de tifo, fui levado para a Fazenda de Jucutuquara, no Solar Monjardim, hoje museu do Estado".
E continua: "Aos seis anos de idade, fui para o Rio de Janeiro, pois fora o meu pai eleito deputado federal. Em Jucutuquara, passei os melhores anos de minha infância".
O único período em que Adelpho viveu fora de Vitória foi o de 1910 a 1915, quando vivia com o pai deputado, na então capital federal. Prossegue seu depoimento: “Alfabetizei-me no Rio de Janeiro, onde completei o curso primário, no Ginásio Cruzeiro. Em 1915, voltei para Vitória. Esta, apesar da obra revolucionária de Jerônimo Monteiro, não passava de um burgo com menos de vinte mil habitantes. No Ginásio Espírito-Santense, completei o curso secundário. Quis seguir a carreira bancária e ingressei no Bank of London & River-Plate Ltda., onde trabalhei cinco anos. Aventurei-me no comércio com dois sócios. Carlos Cunha & Cia, e razão social. Foi um desastre. Dispensei os sócios e arquei com o passivo da firma para não ir à falência, quando sacrifiquei o meu patrimônio e tive de sacrificar o curso de Direito, para o qual tinha feito o vestibular, no Rio de Janeiro”.
Portanto, de seus quase cem anos de existência, noventa e cinco ele passou em Vitória, sua cidade natal, acompanhando, de perto, a transformação da cidade de “um burgo com menos de vinte mil habitantes” a metrópole do século XXI, inserida numa área metropolitana habitada por cerca de dois milhões de habitantes.
Como prefeito de Vitória, cargo também exercido por seu irmão Américo Monjardim, de 1937 a 1944, período em que Adelpho foi nomeado Tesoureiro da PMV, e de 1946 a 47, Adelpho também teve dois mandatos, como prefeito nomeado, de 1955 a 1957, e o primeiro prefeito eleito por voto popular, de 1959 a 1963.
Sua literatura, tanto ficcional quanto a geo-histórica, está repleta de citações a Vitória. Em sua primeira obra, a novela "O Tesouro da Ilha da Trindade", publicada em 1942, é o cenário de moradia do jovem médico Ricardo W. Taylor, o coprotagonista da aventura em busca ao tesouro da Ilha de Trindade.
Também nas novelas fantásticas publicadas em 1944, Vitória surge como cenário. No entanto, sua maior obra sobre o seu berço natal é o “Geografia Física de Vitória”, que lhe deu prêmio, em 1949, e foi publicada em 1950. Outra obra preciosa é “O Saldanha do meu tempo”, crônicas memorialísticas da juventude, no tempo em que era atleta. Assim como Elmo Elton, seu dileto amigo, foi o poeta-cantor de Vitória, Adelpho Monjardim foi o seu maior prosador, eternizando a sua memória e o seu amor pela cidade natal...