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Memória

Rubem Braga e Augusto Ruschi, heróis capixabas e nacionais

Em 1967, Rubem Braga publicou uma crônica na revista Manchete em que fala da luta de Augusto Ruschi para preservar as florestas capixabas

Publicado em 18 de Julho de 2022 às 01:00

Públicado em 

18 jul 2022 às 01:00
Francisco Aurelio Ribeiro

Colunista

Francisco Aurelio Ribeiro

faribe@gmail.com

Capixabas
Rubem Braga e Augusto Ruschi Crédito: Reprodução/Arquivo
Espírito Santo precisa valorizar mais seus principais atores naturais deste Estado. Estado que teve um notável desenvolvimento, nos últimos cinquenta anos, recebeu um enorme contingente de pessoas provenientes do Sul da Bahia, do Leste mineiro e do Norte fluminense.
O capixaba não discrimina quem veio de fora. Elegemos senador baiano e mineiro para nos representar no Congresso Nacional, escritores goianos e mineiros para a Academia de Letras e aceitamos que os que moram conosco há algum tempo se tornem, naturalmente, capixabas como nós.
Isso faz com que tenhamos uma identidade meio fluida, que não tenhamos o orgulho natural de ser baiano, carioca ou mineiro, como acontece com os naturais dos Estados nossos vizinhos. Escrevi, há poucos dias, aqui, neste espaço, que o Espírito Santo não valoriza seus escritores e recebi uma enxurrada de respostas, a maioria concordando, e estendendo essa queixa também a outros artistas, músicos, atores e até mesmo a cientistas e pesquisadores.
Precisamos valorizar mais nossos principais valores, em todas as áreas. Semana passada, assistimos ao filme “A Borboleta Amarela. Rubem Braga, o cronista do Brasil”, dirigido pelo alagoano Jorge Oliveira, uma bela homenagem ao nosso principal escritor. É preciso que todo capixaba leia, sempre, uma crônica de Rubem Braga. Não só aprenderá a escrever melhor como também se educará para ser um humano melhor.
Uma história como “O menino e o Tuim” nos ensina, dentre outras coisas, que não se pode cortar as asas do ser que se ama. Toda criança precisa conhecer essa história, se possível contada pelos pais e discutida nas escolas. Precisamos encher nossas cidades de clubes de leitura, em vez de clubes de tiro. Necessitamos, inclusive, ler melhor a Bíblia, onde Jesus ensina a amar o próximo e não a “armar o próximo”. Jesus foi morto para salvar a humanidade e não para condená-la ao extermínio, estimulando ódio dos que vestem verde e amarelo contra os que usam outra cor.
Outro herói capixaba e nacional, como Rubem Braga, é o nosso principal cientista da natureza, Augusto Ruschi (1915-1986), que, se não tivesse morrido envenenado por um sapo amazônico, morreria de raiva ao ver o que o “progresso” e a especulação imobiliária estão fazendo com as poucas reservas naturais da Mata Atlântica que sobreviveram em sua querida Santa Teresa.
Não adianta encher as ruas de pessoas para comemorar, se as árvores estão sendo derrubadas, nascentes aterradas, fauna e flora dizimadas, e ficar alheio a essa catástrofe ambiental. Em 1967, Rubem Braga publicou uma crônica na revista Manchete, (Ed. 815), em que fala da luta de Augusto Ruschi para preservar as florestas capixabas contra a ação da Vale e da Aracruz, que compravam terras para plantar eucaliptos. Como cientista, Ruschi sabia o que estava dizendo e previu tudo o que aconteceu com a implantação dos grandes projetos de siderurgia em áreas impróprias para isso, gerando a contaminação ambiental e as doenças advindas dela.
Na crônica de Rubem Braga, Augusto Ruschi argumentava com representantes da Vale e da Aracruz, que pretendiam comprar florestas nativas para plantio de eucalipto, que os 500 km quadrados de matas existentes, na época, abrigavam 700 espécies de aves, 150 de mamíferos e 22 mil de plantas, únicas em sua diversidade.
E afirma o Braga: “Ruschi fala dessas coisas com a paixão de quem lhes dedicou toda a sua vida, de quem sabe que é um crime contra a humanidade destruir espécies de seres vivos que não foram ainda sequer estudados pelo homem”. Sabemos o desfecho. Ruschi perdeu e morre a cada dia com a destruição do pouco que restou da vida natural em nosso Estado.
E Rubem termina seu texto assim: “O que é horrível no subdesenvolvimento mental é isto: a ciência econômica é usada para lucro imediato de alguns em troca do empobrecimento irreversível da coletividade”. E joga a pá de cal no texto e no futuro, que hoje vivemos: “E o futuro do Brasil é desfigurado e comprometido em nome da 'técnica' e do 'progresso' de um imediatismo caolho”.

Francisco Aurelio Ribeiro

É doutor em Letras, professor e escritor. Seus textos tratam de literatura, grandes nomes do Espírito Santo e atualidades.

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