Chama-se “racismo estrutural” o que existe em uma sociedade constituída em princípios discriminatórios de raça, em que se normalizam padrões e regras que privilegiam um grupo em detrimento de outros. É parte de um processo histórico, social, político e econômico que elabora mecanismos para que pessoas ou grupos sejam discriminados de maneira sistemática.
Em nosso país, o racismo estrutural se origina com o processo de escravização, tanto dos povos indígenas originários, desde o início da colonização portuguesa, quanto da população africana, trazida pelos colonizadores portugueses, a partir do século XVI. E isso pode ser observado nas comunidades que formaram povoados, vilas e cidades, no nosso Estado.
No Caparaó, onde nasci, pequenas comunidades e vilas surgiram nas terras antes ocupadas pelos povos originários, à medida que esses iam sendo dizimados pelos colonizadores e remanescentes se afastavam para as matas, muitas vezes, associando-se a escravizados quilombolas. Assim surgiram as comunidades de São Lourenço, onde nasceu meu pai, e Santa Bárbara, onde nasci. Imigrantes portugueses e italianos, em sua maioria, fizeram ali nascer comunidades preferencialmente católicas, em torno de pequenas igrejas e de um comércio que se consolidava com a cultura do café, nas terras férteis onde antes vicejavam frondosas árvores nativas.
Em Santa Bárbara do Caparaó, em meados do século passado, quando nasci, havia duas ruas e dois patrimônios. Um, em torno da Igreja Católica, onde viviam os pequenos comerciantes e agricultores de pequenos sítios, todos brancos, e outro em torno da igreja “crente”, com pessoas não brancas e menos providas, economicamente.
Na rua principal, não viviam pessoas “de cor”, como se dizia na época, e todos viviam pacificamente porque “reconheciam o seu lugar”, como também se afirmava, naqueles tempos. O “Patrimônio de Baixo”, indicado pelo curso do rio, começava com a casa da Ilma, amiga de minha mãe do Apostolado da Oração, mãe do José Benedito, a quem chamávamos de “Zé Pretinho”, no grupo escolar, meu colega de Primeira Comunhão. Estamos juntos na foto, eu, ele e a Fátima Nolasco, filha da Dª Penha, a professora.
Em Guaçuí, para onde mudamos e onde passei a juventude, havia três clubes sociais: o Tênis Clube, o Palhense e o Tio Pedro. O primeiro era frequentado pela elite da cidade, moradora das adjacências, e somente quatro pessoas pretas o frequentavam: as três irmãs Amora, professoras conceituadas do Ginásio Estadual, e o músico Fábio Arruda; o segundo era animado pela classe média, no início da Rua da Palha, na época, situada fora do centro da cidade, após a ponte que separava o centro da periferia. Ali também vivia o artesão Antônio Moreira, construtor de imagens de Cristo Redentor espalhadas por algumas cidades. Sempre que saía do Colégio S. Geraldo, onde estudava, ia lá ver como estavam as obras da cabeça e das mãos do Cristo de Colatina, ou de Itaperuna, não sei.
E, na Praça da Estação, estava o Salão do Tio Pedro, o mais animado da cidade, onde não só os pretos, mas todos os que quisessem ir, iam para bailar os ritmos populares num contagiante forró. O padre da cidade, o terrível monsenhor Miguel, só batizava crianças pretas se lhes fosse dado o nome de Benedito. Nenhuma criança preta de sua época podia ser chamada Miguel ou por outro nome de santo que não fosse o de Benedito, o franciscano escravizado na Sicília, patrono dos cozinheiros.
A historiadora Gilcileia Costa de Oliveira, em obra que traça a história da formação do município de Divino de São Lourenço, conta que, após a abolição da escravatura, em 1888, um casal de escravizados recebeu como “retribuição” aos serviços prestados uma imagem do Divino Espírito Santo de ouro. Livres, eles foram para o Córrego Azul, onde já havia uma comunidade quilombola e podiam recomeçar sua vida. A imagem do Espírito Santo passou a ser o símbolo religioso daquela comunidade de negros.
Os mesmos fazendeiros que doaram a imagem também o fizeram com um terreno de dez alqueires para a Igreja Católica construir uma igreja dedicada a São Lourenço, mártir cristão e nome de uma de suas fazendas. O citado monsenhor Miguel, pároco de Guaçuí, era também o celebrante das missas na Vila de Imbuí, antigo nome da cidade.
Dizem antigos moradores que os pretos doaram a imagem para a primitiva capela, mas ele “perdeu” a tal imagem de ouro, em suas constantes idas e vindas; outros dizem que ela voltou aos antigos donos, pois o oratório em que ela estava lá foi encontrado. A partir de 1924, São Lourenço passou a ser o padroeiro oficial da cidade e o Divino Espírito Santo dos negros foi esquecido.
No entanto, em 1964, ao se emancipar, o município recuperou o “Divino” da devoção negra e o incorporou ao nome do município, “Divino de São Lourenço”. Hoje, a Igreja Católica local celebra ritual, na época de Pentecostes, recordando a origem negra na criação do município, ao trazer à cena a devoção ao “Divino Espírito Santo”.