Desde o dia 25 de maio, após o assassinato covarde de George Floyd pelo policial Derek Chauvin, de Minneapolis, começou nos Estados Unidos e se alastrou pelo mundo um movimento de protesto contra o racismo, o “Vidas negras importam”. Tanto lá como cá, o racismo é uma doença contagiosa, embutida no seio da sociedade, que discrimina, segrega, diminui e mata as pessoas pela cor da pele. Tanto lá como cá, “negro parado é suspeito, negro correndo é ladrão”.
Como se não bastasse, o atual momento de epidemia em que vivemos atinge potencialmente os mais pobres, que não vivem em condições sanitárias adequadas e não têm os recursos suficientes para tratamento de saúde. E não por acaso, a maioria da população pobre, aqui e lá, é negra, fruto da perversa escravidão que sustentou nossa sociedade por quatrocentos anos. Tanto lá como cá, os negros brasileiros e americanos têm menos escolaridade, acesso à saúde e a emprego, são sub-representados no sistema político e na indústria cultural.
Por aqui, não somente as vidas negras importam. Na Amazônia brasileira, onde vive a maioria da população indígena, milhares de pessoas estão morrendo à mingua, sem ter acesso aos caros procedimentos médicos utilizados para os infectados em São Paulo, Rio ou aqui, no Espírito Santo, onde existem leitos nos hospitais e UTIs com respiradores, ainda que já em fase de saturação.
Imagens de caixões transportados por caminhões do Exército italiano percorreram o mundo, há dois meses, assustando-nos. Hoje, no Brasil, as pessoas estão sendo enterradas em pilhas, em valas comuns, sem direito a velório e a pranto de seus entes queridos. Já ultrapassamos os mortos da Itália, e, em breve, deveremos estar na desonrosa lista de vice-campeões do mundo em mortalidade por Covid-19. Mais uma vez, o Brasil se curva aos EUA, até na desgraça de seu povo.
Tanto lá como cá, temos presidentes nazifascistas, que priorizam os ricos e a minoria branca, o capital acima da vida. Tanto lá como cá, temos líderes no poder que estimulam o ódio na população, falando em nome de Deus, colocando a ”Pátria acima de tudo”, como se o conceito de pátria incluísse apenas os áulicos que os apoiam.
Somente num governo suprematista como o nosso, não temos pessoas negras em cargos de primeiro escalão, e quando é nomeado um negro, como o atual presidente da Fundação Palmares, ele chama o movimento que luta pelo direito dos negros de “escória”, desconhecendo que oito entre dez pessoas mortas em nosso país são negras.
Deve-se armar a população com saúde, educação e cultura, como afirmou o ministro Barroso. Diante de um “e daí?” ou “fazer o quê? É o destino”, remeto ao poema de Adilson Vilaça, escrito em 2/06, intitulado “Quem é o dono desta morte?”:
“Era mulher. Quase um vulto. Um corpo puído na manhã desnuda. Meia dúzia de curiosos compunha o velório. Alguns, mascarados; outros, soberbos de confiança. Ela repousava os ossos sobre catre de papelão. Mais de meio século, certamente. Grenhas maltratadas esfiapavam-se encardidas. Seria filha de quem? Irmã de quem? Mãe de alguém? Com certeza, órfã. Ou filha da indigência. [...] Era mulher, era negra. Agora é um defunto órfão. Que irá ascender ao céu de anônima cova rasa. Quem era mesmo seu dono? Quem é o dono desta morte? Quem foi que a matou?”.