A frase do título foi dita por Glauco Arbix, professor do Departamento de Sociologia da USP e especialista em inovação. Em entrevista ao Valor Econômico, em 28 de julho, ele fez pertinentes observações sobre pessoas, educação e ciência, que podem ser muito úteis para o debate público neste momento eleitoral do nosso país.
Há três décadas, final do século passado, quando se pensava e falava no desenvolvimento das nações, o foco eram as tecnologias digitais, entendidas como computadores e robôs. O tempo passou e tudo se modificou. Hoje, o que mais importa é a criação de softwares, que gerem soluções para os problemas da economia e do cotidiano das pessoas. Boas e inteligentes soluções são desenvolvidas por pessoas, gente.
Precisamos desenvolver a capacidade das pessoas, de perceber e bem caracterizar os problemas e de aplicar as tecnologias digitais para criar soluções tecnológicas relevantes. Estão aí as startups para fazer a humanidade avançar. A economia das startups anda a passos acelerados e vai criando soluções para seus próprios problemas.
Como é o caso, por exemplo, das necessidades de financiamento. Já existem vários fundos de investimentos em aceleração de startups espalhados pelo país, inclusive no Espírito Santo. Conheço o StarsVix, que reúne quase cem investidores privados locais e já apoia seis empresas.
Volto à matéria do Valor e à reflexão do professor Glauco. Disse ele: “Não investir em educação é dar um tiro no futuro”, já que se fala tanto em armas no país. Sim, retirar financiamento da educação e da ciência equivale a dar um tiro no futuro. Importante observar que vivemos um novo ciclo, científico e tecnológico, “que está sacudindo o planeta”.
Enquanto isso, no Brasil, existe, segundo ele, “um retrocesso que começa na educação básica e envolve outras variáveis, como a desigualdade social e descuido com a proteção do meio ambiente, o que reduz a capacidade do país acompanhar o ritmo mundial de evolução do conhecimento”.
Nos países desenvolvidos, a inteligência artificial já é realidade, enquanto no Brasil, estamos ainda tentando qualificar a educação básica, pois apenas 11% dos jovens que concluem o ensino médio são proficientes em matemática, ou sejam, sabem utilizar de forma adequada os conceitos básicos dessa linguagem tão importante neste século XXI.
Nesse quesito, aprendizagem de matemática, o Espírito Santo lidera no Brasil, mas estamos longe de atingir níveis adequados para acompanhar o desenvolvimento global. Mesmo com esse desafio, o MEC, principal responsável pela política educacional no país, teve nos últimos quatro anos cinco ministros e pouco fez em termos de apoio às redes públicas de ensino, a não ser reduzir as verbas orçamentárias.
País inovador é o que tem pessoas qualificadas, capazes de gerar boas ideias e soluções para os desafios econômicos e sociais. Mas isso depende de apoio e estímulos das políticas públicas e da iniciativa privada. Infelizmente, não foi o que aconteceu nos últimos anos.
Na verdade, o Brasil regrediu em termos de políticas públicas voltadas para a educação básica e para o financiamento da pesquisa científica e geração de novos conhecimentos. Segundo Glauco, “o governo, que deveria ser o estimulador, acaba sendo uma barreira.”
É claro que a pandemia foi um acontecimento extraordinário, que trouxe grandes dificuldades para o adequado processo educacional e para as atividades econômicas, mas ela atingiu a todas as nações indistintamente. A particularidade do Brasil, é que como nação, estamos seguindo um caminho errático, a partir de escolhas políticas equivocadas. É inadmissível que as políticas públicas federais no Brasil sejam orientadas por visões negacionistas da educação e da ciência e tolerantes com a destruição do meio ambiente.
A esperança é que o processo eleitoral em curso possa levar a nação a corrigir a rota, acertar o passo e olhar para o futuro!