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História e poder

A máfia siciliana: escrevendo torto por linhas retas

O fracasso de Cesare Mori no combate à máfia siciliana expõe uma verdade incômoda: o crime organizado resiste porque está entranhado nas estruturas do próprio Estado

Publicado em 19 de Outubro de 2025 às 04:00

Públicado em 

19 out 2025 às 04:00
Henrique Herkenhoff

Colunista

Henrique Herkenhoff

henriquegh@gmail.com

Um primeiro motivo já é possível identificar a olho nu: ele caçou mais do que podia comer. Prendeu quase 12 mil mafiosos em um período de quatro anos, mas conseguiu obter a condenação de menos de 10%, simplesmente porque iniciou mais ações penais do que era possível julgar ou, em outros casos, não obteve provas suficientes, embora, no fundo, ninguém duvidasse de que o réu era culpado.
Cesare Mori, prefeito de Palermo
Cesare Mori, prefeito de Palermo Crédito: Reprodução | Wikipedia
Além disso, como sempre acontece quando se troca qualidade por quantidade de prisões, tratava-se de uma multidão de pequenos criminosos. Não que fossem anjinhos inocentes, apenas eram todos de baixíssimo escalão. Quando Mori se deu conta de que a Cosa Nostra estava impregnada nos níveis mais elevados do governo e mesmo do partido fascista, já estava atolado e só havia gerado uma enorme montanha de papel.
Mori tentou corrigir a trajetória, ainda conseguiu pegar um general aqui, um deputado ali, mas além de haver comprometido sua capacidade operacional, só então ele percebeu que o apoio obtido da população e dos políticos para encarar os peixes pequenos, cuja prisão era irrelevante, de modo algum se repetiu quando ele subia na hierarquia do crime organizado. Com os pobres ele pôde usar métodos que fariam Nayib Bukele merecer um Nobel da Paz, mas nem passava pela porta, quando queria entrar nos gabinetes de quem puxava os fios de toda a engrenagem.
Era tarde demais quando ele descobriu que deveria ter começado de cima para baixo, deixando os menores para o final. E, se falhasse com os graúdos, não se justificava empregar muito dinheiro ou esforço com os miúdos. Ele até conseguiu resultados de curto prazo. A violência explícita caiu. Mafiosos emigraram, especialmente para os EUA e os que permaneceram baixaram suas atividades a níveis extremamente discretos. Contudo, nem foi necessário esperar a queda do Duce. Mori foi gentilmente convidado a se aposentar e a Cosa Nostra aos poucos voltou à “normalidade”. Depois, quando os EUA invadiram a Itália pela Sicília, virou festa, pois os norte-americanos haviam feito um acordo com a máfia e entregaram o governo local em troca de apoio logístico.
Vamos meter uma coisa na cabeça: o crime organizado, especialmente o de colarinho branco, adora prisões lotadas, forcas presas a cada árvore. Não tem jeito senão parafrasear o filósofo grego Diógenes de Sinope: os grandes ladrões são os primeiros a exigir que sejam cancelados os CPFs dos pequenos. O que a Itália de 100 anos atrás tem a ver com o Brasil atual? É rigorosamente a mesma história se repetindo, primeiro como tragédia, agora como farsa.

Henrique Herkenhoff

É professor do mestrado em Segurança Pública da UVV. Faz análises sobre a violência urbana e a criminalidade, explicando as causas e apontando caminhos para uma sociedade mais pacífica. Escreve aos domingos

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