Todo secretário de Segurança precisa lidar com um padre que quer ser comandante da PM. Eu fui o único que teve um comandante da PM que queria ser padre, mas isso é outra história...
Ninguém, pelo menos não eu, duvida da honradez, das boas intenções e do respeito que o Coronel Douglas Caus tem pelos Direitos Humanos, mas o fato é que não é a primeira vez que ele é criticado por declarações públicas fortes mandando que determinados criminosos se entreguem ou algo ruim pode acontecer.
Em primeiro lugar, é preciso tomar cuidado com aquilo que será entendido pela corporação, pois essa foi uma fala direta a cada membro, que pode ser mal interpretada. Perder o controle da tropa é fácil; recuperar é difícil, demorado e de resultado incerto. Em segundo lugar, devemos lembrar que o tal pronunciamento não ficou restrito à PM: como o suspeito não se apresentava e cansados de tanta presença policial na região, os traficantes parece que resolveram entregá-lo; só esqueceram do acondicionamento padrão. Por último: outros políticos têm adotado discursos até mais bombásticos em relação à atuação das polícias, mas não parece que o nosso queira ser conhecido como o governador do Saco Preto.
O mesmo podemos dizer em torno dessa polêmica sobre o aumento explosivo do número de confrontos entre policiais e suspeitos, que estourou por conta da tragédia provocada por uma bala perdida, mas estava latente, só esperando um mote para virar manchete. Um aumento que tende a ser de 1.500% em 5 anos não pode ser explicado somente pela maior disponibilidade de armas para as facções, muito menos por decisões individuais dos criminosos. É um novo modo de lidar com a criminalidade, cujo início coincide exatamente com o segundo mandato de Casagrande e, se valer o discurso do secretário de Segurança, vai continuar pelo terceiro. Se está certo ou errado é uma discussão; se está alinhado com o posicionamento político do governador, outra.
Ao insistir que as polícias estão e continuarão fazendo a parte delas no enfrentamento da violência e colocar a culpa ora na legislação, ora no Judiciário, ora na falta de serviços públicos, o Coronel Ramalho, outro funcionário com extensa folha de bons serviços públicos prestados e caráter acima de qualquer suspeita, faz parecer que, na visão dele, o Programa Estado Presente, joia da coroa de Casagrande, é totalmente inoperante, incapaz de levar às comunidades carentes outra coisa que não sejam policiais armados com fuzis israelenses.
Como ficam os demais secretários do governo, especialmente a de Direitos Humanos, diante dos tons desafinados dessas afirmações públicas? Como fica o governador? Já apontamos anteriormente nesta coluna as frontais contradições entre o que diziam o secretário de Segurança e um ex-secretário de Justiça. É claro que nunca se consegue uma comunicação monolítica, mas essa orquestra está precisando ensaiar um pouco antes de vir a público.
Não, não estamos apresentando soluções prontas para a Segurança Pública, muito menos as fáceis, rápidas e baratas. Aliás, uma excelente ideia não é tão boa assim quando não se consegue o apoio necessário da população, de outras autoridades e até interno. Sabemos bem que há sempre um monte de gente torcendo contra, fazendo corpo mole e até sabotando, pelos mais diversos motivos e interesses. Não, não temos certeza do que daria certo, apenas do que já deu errado no Iraque, no Afeganistão e no Rio de Janeiro. Se não nos dão ouvidos, só nos resta torcer para estarmos errados.