Correção
24/04/2023 - 2:37
Versão anterior deste artigo trazia a informação, baseada em notícias anteriores, de que um homicídio ocorrido em uma casa de shows de Vitória teria envolvimento de policiais militares. Nesta segunda-feira (24), a Polícia Civil descartou oficialmente a participação de PMs no caso. O texto foi corrigido
É impossível não fazer esta coluna sobre episódio muito recente em que um policial militar fora do serviço tirou a vida de um civil. O caso gerou intenso clamor popular e circulou a notícia de que o autor havia sido reprovado na investigação social e só estava na corporação por decisão judicial. Contudo, ao menos pelo que se pôde ler nos jornais, os fatos têm muito em comum entre si e com outros eventos anteriores.
Um fenômeno mais brasileiro que a jabuticaba é a intensa procura por cargos públicos. Em particular, dezenas de milhares se candidatam em qualquer concurso para as polícias. Tem um detalhe muito importante: nada atrai mais os malucos e os desonestos que a perspectiva de andar por aí armado, fardado etc. É necessária uma enorme cautela tanto nos exames psicotécnicos como na investigação social. Que não garantem 100% de prevenção, cabe lembrar.
Claro que isso é só o comecinho da história. Depois é necessário formar esses policiais recrutas. E não é só ensinar a atirar e algemar. Entre muitas coisas que eles precisam aprender (e mais ainda, desaprender, como o preconceito e a discriminação), é indispensável que a escolha adequada de quando usar ou não da força, especialmente de uma arma de fogo, funcione no “automático”, isto é, seja um reflexo condicionado, exatamente como quando reagimos a um possível acidente de automóvel: ninguém fica fazendo contas e meditando longamente, apenas pisamos no freio. E a decisão de atirar ou não também é tomada em uma fração de segundo; depois, não tem volta.
Duas coisas potencialmente explosivas se combinam antes desses momentos trágicos.
De um lado, o Espírito Santo simplesmente não tem capacidade de recrutar mais que 300 ou, no máximo 400 praças por ano. Sua estrutura de Inteligência não pode parar e ela tem limitações. Por outro lado, também não temos capacidade de treinar mais que essa quantidade de futuros soldados. Não temos e nem deveríamos ter, porque essa é a quantidade suficiente para manter ou fazer consideráveis aumentos no efetivo ao longo do tempo, conforme seja a opção dos governantes de cada período.
Do outro lado, concursos públicos são cada vez mais “catimbados”. Como cada candidato concorre com outros milhares, cada decisão tomada pela administração vai agradar um time e provocar a ira de outro. Chovem ações judiciais de todo tipo. Cada uma delas, isoladamente, poderia não constituir um problema maior, mas, somadas, chegam a inviabilizar muitos certames. Não vou discutir o mérito de nenhum julgamento, apenas registrar que o Judiciário precisa ser extremamente econômico ao desfazer atos administrativos, ainda mais quando se referem a concursos públicos.
Que fazer, agora, com esses que já estão incorporados às fileiras, cuja quase totalidade quer apenas ser um bom profissional e cumprir as leis? Reciclagem. A começar por essas turmas que foram grandes demais, mas o fato é que um policial precisa de aprendizado contínuo, precisa ser completamente reciclado ao menos uma vez por ano, ou aquilo que aprendeu no curso de formação irá se perdendo nem tão lentamente assim. Mantenhamos nossos policiais longe de encrencas e nossa população plenamente confiante nesses servidores públicos. E não repetir o erro de exceder nossa própria capacidade de seleção e preparação.
Concluo registrando que ser policial não é direito de ninguém. Ser policial não é para quem quer, é para quem pode.