Como disse na semana passada, prender corruptos não era a prioridade da Missão Especial de Combate ao Crime Organizado nem a base de nossa estratégia. Quem leu as colunas dos domingos anteriores talvez já tenha percebido que utilizamos a estratégia do abafamento e, inconscientemente, a abordagem da ciência de redes.
E nenhum de nós havia lido o livro que citarei outro domingo sobre as estratégias oblíquas, até porque ele não havia sido publicado, mas elas estavam ali.
Não dá para contar detalhes em tão pouco espaço editorial e existe aquilo sobre o que sou obrigado a manter sigilo, mas quem tem idade suficiente para lembrar perceberá que houve apenas algumas ações de improbidade e pouquíssimas prisões, sempre por curto período, mas elas foram suficientes para implodir a estrutura corrupta que se havia instalado no Estado. É que os líderes viviam da fama de invulnerabilidade, da promessa de que todos os seus comparsas ficariam impunes e isso foi desfeito.
Porém, mais importante que tudo, forçamos uma maior transparência nos atos governamentais e a imprensa livre cumpriu o seu papel de informar a sociedade. A repercussão social dos fatos colocou em primeiro lugar na cabeça do eleitor votar em candidatos que ele próprio julgasse honestos. Gente que conseguia se eleger mesmo sendo ostensivamente corrupta passou a ter dificuldades.
Note-se que a Missão Especial não controlava esses processos, apenas serviu como espoleta, deflagrando uma reação em cadeia da própria sociedade, cada cidadão interagindo com outro cidadão, passando a acreditar que era possível vencer. Aquela descrença inicial no sucesso de nosso trabalho foi sendo desfeita e, depois, trocada por entusiasmo da população.
Em poucos anos o Espírito Santo se recuperou e se desenvolveu econômica e socialmente. Foi pessoalmente muito satisfatório decepcionar os derrotistas, mas há uma advertência importante. É preciso lavar as axilas e passar desodorante periodicamente. Não eliminamos a maldade do ser humano.
O Espírito Santo continua cheio de gente de mau caráter e sempre atenta a qualquer oportunidade. Se o eleitor esquecer por um instante de votar somente em quem ele considera honesto, a corrupção volta com força total no dia seguinte. Qualquer acomodação das autoridades sérias, dos meios de comunicação, dos políticos e empresários bem-intencionados, da sociedade civil organizada ou da população permitiria retrocessos inimagináveis. A Missão Especial não é de alguns poucos iluminados, é de todo mundo e "o preço da liberdade é a eterna vigilância". Fui