Então temos mais um famoso jogador de futebol aparecendo nas manchetes não por algo que aconteceu dentro dos gramados, mas pelas noitadas afora. Claro que não vamos nos juntar aos milhões que estão dando suas opiniões sobre quem é culpado ou inocente, mas o tema é interessante e, não, isso não acontece apenas a celebridades: só não tem a mesma repercussão na mídia, mas tem um monte de machos alfa se enrolando por aí.
É que estamos passando por duas grandes modificações paralelas, intensas e profundas, seja no que se considera comportamento culturalmente adequado, seja nas relações culturais de poder entre homens e mulheres. Desde os primórdios da Humanidade, a mudança permanente é a marca desses dois elementos. Não é tanto a instabilidade que surpreende, mas a velocidade e o fato de que a sociedade, pelo mundo todo, estar implementando isso pela via do Direito Penal.
Certas condutas que poucos anos atrás eram o padrão não apenas deixaram de ser aceitas, mas se tornaram crimes. E isso de dizer que não são mais apropriadas é muito relativo, porque não apenas continuam muito frequentes por parte dos homens, mas também permanecem endossadas por um número significativo de mulheres.
Alterações nos códigos de conduta geralmente demandam três ou mais gerações, pois quem viu algo ser praticado quando era criança tende a repeti-lo na idade adulta, que é a fase de vida mais longa. Só depois desse processo é que a insistência em certas práticas costuma ser criminalizada. Não é o caso. Aquilo que era o cotidiano dos adultos maduros ainda está no mindset de adultos jovens e em germe nos adolescentes simplesmente virou um crime hediondo.
Se olharmos para as estatísticas de estupro, vai parecer que essa modalidade de violência explodiu quando podemos nos arriscar a dizer que ela até diminuiu. O que foi extremamente ampliado foi o próprio conceito de estupro, ao passo que nem se falava em assédio sexual duas décadas atrás. Além disso, a disposição para denunciar aumentou muito e as brumas em torno do tema estão se desvanecendo.
Alguém pode sustentar que há acusações abusivas e até fraudulentas, mas essa discussão cabe aos advogados de cada acusado. Também podemos questionar se é correto forçar mudanças culturais empregando o Direito Penal, mas esse é um processo civilizatório que está ocorrendo em todo o Ocidente.
É muito difícil, está claro, deixar de proceder de um certo modo para quem viveu um período no qual ele era perfeitamente normal – não apenas tolerado como exceção, mas realmente o padrão médio. O certo e o errado, os limites do permitido, do proibido e do crime são bastante confusos e inclusive os julgadores estão tateando, pois eles também estão sendo surpreendidos pela velocidade e pela intensidade da troca de critérios.
Em resumo, não pense que isso acontece apenas com as famosidades. Amanhã pode ser qualquer um de nós enfrentando os tribunais sem achar que fez nada de anormal. E não tem manual de instruções. As fronteiras entre o crime e o comportamento sexual aceito estão próximas demais, fluidas demais. Em tempo de murici, cada um cuida de si.