Com que, então, a polícia acredita que criminosos do Espírito Santo estavam lavando dinheiro em uma casa lotérica no Rio de Janeiro. Não há nisso nenhuma surpresa, nem mesmo no esquema que teria sido montado, bem previsível.
O problema de se ganhar dinheiro de forma ilícita é que muitos fatores levam a torrá-lo todo de forma imediata. De um lado, permanente probabilidade de ser preso ou mesmo assassinado incentiva a usufruir o quanto antes as vantagens que ele poderia proporcionar.
Por outro, mesmo que não se tenha uma consciência clara disso, esse gasto desenfreado só aumenta o vazio dentro do ser humano e o indivíduo entra em uma espiral de delitos e farras. Por fim, é difícil esconder e ainda mais movimentar muita grana sem chamar a atenção das autoridades públicas
Temos chamado a atenção do leitor para o fato de que a maioria dos infratores nunca chega a ter muito lucro e nisso se incluem os traficantes. No mercado de substâncias ilícitas, apenas uma meia dúzia fica com a maior parte da vantagem econômica. Até uma certo quantidade, é possível pagar em dinheiro, mesmo, todas as despesas e não sobra tanto que todo mundo note. Contudo, se o volume pecuniário é muito acima da média da população, o bandido vai cada vez ganhando mais destaque e isso é tudo o que não desejam aqueles que vivem fora da lei.
Então, os transgressores do Código Penal, quando tudo o mais dá certo, ficam com um grande problema para resolver: como guardar, investir ou mesmo consumir a sua bufunfa sem acabar sendo investigado mais pela aparência de riqueza, mais pela ostentação que propriamente pelos crimes que cometeu?
A lógica será sempre a mesma: criar uma cortina de fumaça, uma origem aparentemente lícita para a riqueza que circula nas mãos do tráfico e de outras atividades ilegais. Isso não é fácil, todavia.
Cada vez circula menos dinheiro em papel. Cada dia a tecnologia aumenta o controle do Estado sobre as atividades privadas. Já não é necessário andar pelas ruas coberto de sangue para se tornar suspeito. Nem traficante está mais escapando do sistema bancário e até dos impostos.
Agora não basta mais ser violento e impiedoso para se dar bem em uma carreira criminosa, é preciso também entender de finanças e contabilidade, de Direito, de Economia etc., ou pelo menos ter alguém a seu serviço que entenda. Uma das primeiras e mais famosas maneiras de fazer isso foi através de lavanderias, e a imagem era muito forte, então isso foi imediatamente chamado de “lavagem de dinheiro”.
No caso concreto desta semana, faltava sabão e sobrava água sanitária. Enquanto as autoridades não se dessem conta, podia funcionar, mas, uma vez iniciado um inquérito policial, seria difícil esconder e ainda mais explicar as operações bancárias realizadas. Tudo ruiu como um castelo de cartas quando se quebrou o sigilo da tal lotérica carioca.
Contudo, quanto mais sofisticados os salafrários, mais eficientes eles se mostram nessa arte do branqueamento de capitais. Particularmente no caso dos criminosos de colarinho branco, o trabalho investigativo não apenas é mais difícil de realizar, como também mais raro de acontecer, porque são utilizadas transações mais discretas e com uma maior aparência de licitude.
Não é necessariamente a complexidade do mecanismo de lavagem que importa; às vezes não adianta fazer o dinheiro passar por inúmeras contas bancárias no exterior. Aliás, a preguiça mental é uma das falhas mais frequentes. Quando alguém encontra um canal interessante para drenar a sua fortuna, todo mundo sai imitando e, quando um é descoberto, os outros vão caindo em fileira.
Uma única quebra de sigilo bancário deu origem a inúmeros mandados de prisão. Se quiserem escapar, nossos meliantes de estimação precisarão ser mais competentes na área financeira e, principalmente, um pouco mais criativos. Por enquanto, a nossa polícia está vencendo de 7 x 1.