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Violência

Facções se tornaram um desafio de segurança maior que as drogas em si

Jacarezinho foi vitória de Pirro: resultados táticos foram um redondo zero. Milhares de armas semelhantes continuam em mãos de criminosos. Nenhum grama de entorpecente deixou de ser consumido no Rio naquele dia

Publicado em 06 de Junho de 2021 às 02:00

Públicado em 

06 jun 2021 às 02:00
Henrique Herkenhoff

Colunista

Henrique Herkenhoff

henriquegh@gmail.com

Com ele, foram encontrados 17 pinos de cocaína.
Drogas custam caro ao consumidor final, mas são produtos vegetais ou sintéticos muito baratos e fáceis de produzir em quantidade suficiente para sempre superar as apreensões Crédito: PM
Em 1915, um certo Winston Churchill, Primeiro Lorde do Almirantado inglês, precipitou quase 500 mil soldados contra a península de Galípoli, na Turquia, perdendo metade desse efetivo, mas o estreito de Dardanelos permaneceu fechado para a Tríplice Entente até o final da 1ª Guerra Mundial.
Em 1974, os EUA tiveram que se retirar vergonhosamente do Vietnã, levando para casa “apenas” 58 mil mortos, contra cerca de 1 milhão de vítimas fatais entre os vietcongs. Ninguém parece ter aprendido nada durante um século, porque, em 2021, a Polícia Civil/RJ comemora o estrondoso “êxito” de uma operação na favela do Jacarezinho...
Após meses de investigação, os resultados operacionais em Jacarezinho foram corriqueiros: a instituição afirma que 3 traficantes foram presos e 27, mortos; apreendeu-se alguma quantidade de droga e armamento, mas nada muito diferente do que as facções criminosas geralmente têm em seu poder.
Mesmo que esteja tudo certo, não se vai entrar para a História por este caminho. Somente o Comando Vermelho teria no RJ, estima-se, cerca de 12 mil integrantes. Em uma conta grosseira, parece que seriam necessárias 400 operações semelhantes, em um prazo menor do que a facção levaria para substituir suas baixas.
Os resultados táticos foram um redondo zero. Milhares de armas semelhantes continuam em mãos de criminosos. Nenhum grama de entorpecente deixou de ser consumido no Rio naquele dia e não houve nem sequer desabastecimento ao longo da semana seguinte. O controle da área certamente já foi retomado pelo crime.
De fato, traficantes são uma mão de obra mais descartável que escravos, já que não é necessário comprá-los de um negreiro. Drogas custam caro ao consumidor final, mas são produtos vegetais ou sintéticos muito baratos e fáceis de produzir em quantidade suficiente para sempre superar as apreensões. De quebra, mais um episódio de repercussão internacional lembra o turista estrangeiro de como a Cidade Maravilhosa pode ser violenta.
No plano estratégico, a operação lançou a instituição carioca contra a alta cúpula do Judiciário, fornecendo munição a políticos de oposição e ativistas dos direitos humanos. A comunidade fechou-se um pouco mais às autoridades públicas e abriu-se aos traficantes, com 10 candidatos para cada vaga deixada pelos que morreram.
Tudo ganha contornos de um conflito entre extremistas religiosos. É de se perguntar se alguém em sã consciência acredita em um progresso significativo e duradouro em termos de segurança pública por esta via.
As autoridades apontam, corretamente, que as facções criminosas usam armamento bélico e táticas de guerrilha, mas ninguém fala em adotar estratégias de contrainsurgência. Ninguém jamais pensou em estratégias indiretas ou sequer em uma variação de abordagem. Não que isso seja fácil: apenas é evidentemente necessário.
As facções criminosas se tornaram um desafio de segurança maior que as drogas em si, mas o modo normal de funcionamento que as autoridades cariocas adotaram consegue ser um problema ainda pior. Levante a mão quem acha que a intifada de 06 de maio de 2021 é o primeiro capítulo da vitória final do Rio de Janeiro contra o tráfico.

Henrique Herkenhoff

É professor do mestrado em Segurança Pública da UVV. Faz análises sobre a violência urbana e a criminalidade, explicando as causas e apontando caminhos para uma sociedade mais pacífica. Escreve aos domingos

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