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Segurança pública

Minhas soluções mágicas para o crime organizado, parte 2

Ainda é muito cedo para conceder a Bukele os louros da vitória, mas, apesar de não ter dado certo na Sicília, também é precipitado dizer que também dará errado em El Salvador

Publicado em 17 de Agosto de 2025 às 03:00

Públicado em 

17 ago 2025 às 03:00
Henrique Herkenhoff

Colunista

Henrique Herkenhoff

henriquegh@gmail.com

Pois é, já tem bastante gente falando do método utilizado por Nayib Bukele, presidente de El Salvador, para acabar com as “maras”, organizações criminosas muito parecidas com as nossas facções em alguns aspectos e muito diferentes em outros.
Até minha última atualização, ele havia prendido 65 mil pessoas e estima que falta prender mais 8 mil, apenas. Parece que também reconheceu que umas 8 mil pessoas presas eram inocentes. Obviamente ele não tinha 73 mil alvos claros e com prova reunida, que só faltava prender.
El Salvador
Nayib Bukele, presidente de El Salvador Crédito: Gabinete da Presidência de El Salvador
Para além de “prisões arbitrárias”, ele só conseguiu tantas detenções porque aprovou uma legislação que, por exemplo, tornou crime, com penas de até 10 anos, o simples fato de ter uma tatuagem ou fazer postagens na internet. Mas, se você pensa que a ideia original é dele, está muito enganado.
Benito Mussolini foi o único governante italiano que realmente combateu a Cosa Nostra, a máfia siciliana. Para isso, em 1925, nomeou Cesare Mori prefeito de Palermo, com poderes especiais sobre toda a Sicília e a missão expressa de acabar com o crime organizado: “Sua Excelência tem plenos poderes, a autoridade do Estado deve absolutamente, repito, absolutamente, ser restabelecida na Sicília. Se as leis atualmente em vigor o impedirem, isso não será problema, faremos novas leis”.
Em quatro anos, Mori prendeu quase 12 mil pessoas e seus métodos fariam de Bukele um modelo de direitos humanos. Mas ele não era tonto. Após uma operação em que prendeu 300 suspeitos, ele deu a seguinte declaração: “Essas pessoas ainda não entenderam que bandidos e a Máfia são duas coisas diferentes. Nós atingimos o primeiro, que é sem dúvida o aspecto mais visível da criminalidade siciliana, mas não o mais perigoso. O verdadeiro golpe mortal à Máfia será dado quando formos capazes de fazer operações não apenas entre peixes pequenos, mas nas prefeituras, delegacias, mansões de empregadores e, por que não, em alguns ministérios”.
O resto é história. A vida ficou realmente muito difícil para os mafiosos naquela época, muitos emigraram para os EUA, onde se reuniram a outros compatriotas e criaram a máfia norte-americana, com uma ajudinha da cômica Lei Seca. Quando decidiu invadir a Itália começando pela Sicília, o exército norte-americano entrou em acordo com a máfia e lhe devolveu poderes ainda maiores.
 Depois tivemos os heróis trágicos, os juízes Giovanni Falcone e Paolo Borselino, que pagaram com a vida por terem realmente infligido severas baixas à Cosa Nostra, mas sua influência foi passageira, exceto porque a população, indignada, acabou forçando a adoção de algumas leis antimáfia, como por exemplo a delação premiada.
Hoje a Cosa Nostra enfrenta uma lenta decadência devido à sua estrutura piramidal e fortemente hierarquizada, que favorece as delações, mas a 'Ndrangheta se renovou e atualizou, estando mais forte do que nunca. A Camorra e a Sacra Corona Unita também não parecem ter problemas maiores com as leis antimáfia.
Mori, ao contrário de quase todos os outros, tinha uma estratégia clara e com todo potencial de funcionar: garantir à população acesso direto a seus direitos legais, sem a necessidade de intermediação do crime organizado, que era a fonte de todo o poder da Cosa Nostra. Só que esbarrou na corrupção interna do próprio partido fascista. Isso voltará a ser assunto aqui na coluna.
Ainda é muito cedo para conceder a Bukele os louros da vitória, mas, apesar de não ter dado certo na Sicília, também é precipitado dizer que também dará errado em El Salvador. Porém, mesmo que funcione em El Salvador, esse modelo não pode ser exportado para o Equador, por exemplo, como estão tentando.
Continua no próximo domingo.

Henrique Herkenhoff

É professor do mestrado em Segurança Pública da UVV. Faz análises sobre a violência urbana e a criminalidade, explicando as causas e apontando caminhos para uma sociedade mais pacífica. Escreve aos domingos

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