Estava planejando falar de estatísticas, mas eis que já não é possível escrever esta coluna sem tratar de Pedro Canário. Além da inevitável repercussão na mídia, houve enorme comoção popular e, diante de imagens tão difíceis de justificar, mesmo aqueles que defendem a morte de criminosos no mínimo ficaram silenciosos.
Não foi daqueles casos em que se discute ter havido legítima defesa ou excesso por parte de policiais. Naturalmente, a cadeia hierárquica precisou dar declarações protocolares, para não parecer omissão e tampouco prejulgamento, mas a população já viu o suficiente para se convencer.
Como também era natural, o episódio reacende a discussão sobre o uso de câmeras nos uniformes dos policiais. Com um ingrediente a mais, dado que, neste caso, não se tratava de documentar os fatos; certamente todos teriam pensado duas vezes e provavelmente não estaríamos falando do assunto porque nada teria ocorrido.
É como fazem com os presidentes dos EUA: estes sabem que tudo o que fazem e dizem está sendo gravado e será divulgado décadas depois; a intenção não é apurar eventuais ilegalidades, porque tempo demais terá passado; o objetivo é simplesmente fazer com que essas altas autoridades controlem a língua e as mãos. A ideia em si é boa, mas está mal colocada nesse contexto.
Também não, não dá para generalizar esse fato como se fosse uma rotina da corporação. É como lançar suspeita sobre todas as centenas de milhares de padres quando um deles se envolve em pedofilia. Decididamente, a PMES, como corporação, está muito distante desse tipo de prática. Se alguns desgarrados ultrapassam as raias do absurdo, para esses temos leis.
A questão que se deve colocar é bem outra. Como se disse, não se trata de uma ação atrapalhada da polícia que acaba tendo um desfecho indesejado. Não se pode nem sequer enxergar aí apenas brutalidade e excesso. Pelo contrário, tudo parece ter sido preordenado, exceto a existência de uma câmera indiscreta. Para bom entendedor, não é preciso dizer mais nada. Há muito o que procurar debaixo desse tapete além de um simples caso de falso confronto e provas forjadas.