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Segurança Pública

Mortes ou independência: uma reflexão sobre a criação de companhias da PM

Na lógica dos imperadores romanos, que até hoje ninguém conseguiu desmerecer, a criação de companhias independentes só entraria em cogitação caso o governo pretendesse alocar ao menos 200 praças em Pinheiros e outros tantos em Jaguaré

Publicado em 15 de Agosto de 2021 às 02:00

Públicado em 

15 ago 2021 às 02:00
Henrique Herkenhoff

Colunista

Henrique Herkenhoff

henriquegh@gmail.com

Polícia Militar reforça o patrulhamento no bairro Planalto Serrano após tiroteios entre traficantes e ameaças à jornalistas que faziam matéria sobre a onda de violência na região
Polícia Militar em reforço do patrulhamento no bairro Planalto Serrano após tiroteios entre traficantes Crédito: Fernando Madeira
governo estadual lançou um pacote de medidas na área da segurança pública e, claro, todos querem saber se ele alcançará os resultados esperados. Tenho a resposta na ponta da língua: NÃO SEI. Se alguém disser que sabe, é um parlapatão, mas podemos especular, por exemplo, que significaria, na prática, a criação de quatro companhias independentes.
Desde o exército romano se estabeleceu um número ideal de subordinados para cada superior hierárquico. Assim, no período da República, 10 soldados eram treinados e comandados por um decurião, sendo que dez decúrias ficavam a cargo do centurião; 5 centúrias formavam uma coorte e 5 coortes, uma legião. Já o número de legiões entregues a um comandante geral (general) dependia da missão. Isso, claro, variou ao longo do tempo, a ponto de mandarem o latim para a cucuia e criarem centúrias de 80 ou 160 soldados, mas nunca muito longe das proporções iniciais.
Bem, a organização básica da PMES é feita em batalhões, com um tenente-coronel à frente, tendo um major por subcomandante. A unidade operacional é a companhia, responsável por uma região geográfica ou por uma atuação especializada (operações com cães, por exemplo), aos cuidados de um capitão.
Na prática o comando do batalhão só precisa gerenciar os capitães, que cuidam das praças com ajuda de tenentes e sargentos. Todavia, alguém achou que certas regiões precisavam de um comando próprio, mas não de tantos soldados quanto um batalhão. Como “batalhinho” soava mal, resolveram batizar essas unidades de “Companhias Independentes” e entregá-las a um major.
Uma companhia dos tempos atuais equivale a uma coorte latina, bastando no máximo um capitão para comandar 100 soldados. Na lógica dos imperadores romanos, que até hoje ninguém conseguiu desmerecer, a criação de Companhias Independentes só entraria em cogitação caso o governo pretendesse alocar ao menos 200 praças em Pinheiros e outros tantos em Jaguaré. Um reforço gigantesco cujos frutos não demorariam a ser colhidos, sabendo que pequenos aumentos de contingente não adiantam, porque são consumidos pelo acréscimo automático da papelada em uma CiaInd.
Não sendo o caso, o governo corre o risco de estar apenas inventando uma espécie muito cara e emperrada de embaixada, permitindo que a população e autoridades locais conversem com um oficial do chamado “círculo superior”, mas não necessariamente mandando tanto patrulhamento assim para lá. Pode ser um gol de placa. Ou não. O tempo dirá.
Continua na semana que vem.

Henrique Herkenhoff

É professor do mestrado em Segurança Pública da UVV. Faz análises sobre a violência urbana e a criminalidade, explicando as causas e apontando caminhos para uma sociedade mais pacífica. Escreve aos domingos

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