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Mudança na Sesp

Não há onde aprender tanto quanto no cargo de secretário de Segurança Pública

Não tem “pauta positiva” na Sesp. O secretário nunca beija crianças nem entrega brinquedos, só responde perguntas sobre crimes bárbaros e vai ser difícil ter uma foto dele sorrindo naturalmente, porque está sempre com algo o preocupando

Publicado em 12 de Abril de 2020 às 05:00

Públicado em 

12 abr 2020 às 05:00
Henrique Herkenhoff

Colunista

Henrique Herkenhoff

henriquegh@gmail.com

Os sete presos beneficiados cometeram delitos  sem violência ou grave ameaça
As algemas da segurança pública Crédito: Divulgação DPES
O cargo de Secretário de Segurança Pública é o pior e o melhor emprego do mundo, ao mesmo tempo. Se você odeia o tédio e não liga de trabalhar 24 x 7; se tem o couro grosso e não se importa em ser criticado e tomar decisões arriscadas, desde que esteja convicto de estar fazendo o seu melhor; se você só conta os amigos que faz, não as brigas que arruma... tudo bem.
Não tem “pauta positiva” na Sesp. O secretário nunca beija crianças nem entrega brinquedos, só responde perguntas sobre crimes bárbaros e vai ser difícil ter uma foto dele sorrindo naturalmente, porque está sempre com algo o preocupando. Suas decisões nunca são uma unanimidade: na verdade, quase sempre a melhor medida parece um contrassenso à população. Passa o tempo todo arbitrando conflitos e desagradando todo mundo. Nenhum resultado é bom o suficiente, mas, se for muito ruim, a culpa é dele. Se você pertence a uma força policial, as outras questionam; se vem das forças armadas, isto significa que não se reconhece a prata da casa; se não é uma coisa nem outra, certamente não sabe o que faz...
Cheguei à conclusão de que a principal função do Secretário de Segurança é ouvir sugestões, inclusive as que publico semanalmente, e não seguir nenhuma, se tiver juízo. É basicamente isso o que esperam dele: ouvir muitas opiniões e sempre explicar as medidas adotadas, embora nunca possa realmente revelar suas razões sem estragar tudo. O poder é sempre solitário, especialmente para as pessoas públicas honestas, mas há montanhas mais altas e frias, há florestas mais fechadas e escuras que outras. Só Deus e o ocupante daquela cadeira de três pés sabe como muito se espera e pouco depende dele.
Entre tudo isso, todavia, o que talvez seja mais dolorido é essa opinião generalizada de que, afinal de contas, não há nada a ser feito, de que nem você nem ninguém vai sequer diminuir violência na sociedade. Uns manifestam isso exigindo que todos os suspeitos sejam executados sumariamente, mesmo sabendo que ninguém fará isso. Outros, dando tapinhas nas suas costas e dizendo palavras consoladoras antes mesmo que você assuma o cargo.
Dito isso, por que alguém em sã consciência aceitaria esse emprego? Não faço a mínima ideia, até porque não conheço ninguém mentalmente são que o tenha feito... Para os insanos, no entanto, existe muito mais do que a sensação de dever cumprido. Em tempos de paz, não há outro lugar onde se possam forjar a fogo umas poucas amizades que valem qualquer sacrifício. Não há onde aprender tanto. Como pensavam os cristãos primitivos, é o próprio martírio que vale a pena.

Henrique Herkenhoff

É professor do mestrado em Segurança Pública da UVV. Faz análises sobre a violência urbana e a criminalidade, explicando as causas e apontando caminhos para uma sociedade mais pacífica. Escreve aos domingos

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