Em praticamente todos os debates sobre segurança pública, o assunto não vai além de certas categorias de crime. Aqueles contra o patrimônio particular, por menor que seja o valor envolvido, está sempre nos corações e mentes, mas pouca energia é realmente gasta quanto aos bilionários desvios de verbas públicas. Basta ver o contingente de policiais e a quantidade de ações criminais dedicados a punir os pequenos ladrões e quão minguada é a estrutura dedicada aos grandes.
Não há nada de novo nisso, já que o Padre Antônio Vieira o observava no Sermão do Bom Ladrão, proferido em 1665, na Igreja da Misericórdia em Lisboa, perante o Rei D. João IV e sua corte: “Mas o que vemos praticar em todos os reinos do mundo é, em vez de os reis levarem consigo os ladrões ao paraíso, os ladrões são os que levam consigo os reis ao inferno”... Sim, bem corajoso esse sacerdote!
A esmagadora maioria dos agressores sexuais é bem próxima de sua vítima, não raro um parente, e tudo ocorre entre quatro paredes, completamente impossível de prevenir pelo patrulhamento das vias públicas. Também uma parte bem menor, mas ainda significativa, dos homicídios segue essa lógica.
Delitos de proximidade são sensíveis à investigação e à prisão dos culpados – que não remediarão o passado, mas evitarão a repetição no futuro – mas respondem pouco ao patrulhamento ostensivo, salvo na medida em que este apreende armas ilegais ou atua nas grandes aglomerações. Já o tráfico de drogas também não diminui com o aumento de prisões, porque essa é, quase literalmente, uma estratégia de “enxugar gelo”.
Uma fala recente do Secretário de Segurança reflete bem essa realidade. Simples aumentos lineares e desarticulados dos contigentes policiais não apenas podem ser completamente ineficazes, como onerar ainda mais os cofres públicos e dificultar qualquer esforço no sentido de melhorar a remuneração dos profissionais já contratados, ou de equipá-los e treiná-los melhor.
Estratégias e políticas públicas de segurança não são a mesma coisa, mas têm algo em comum: são todas muito complicadas e de resultado difícil de prever – exceto naqueles casos em que se sabe perfeitamente que vai dar errado. E, não custa repetir, tudo o que já funcionou bem até hoje mirava no longo prazo, sem qualquer promessa de “limpar a cidade” da noite para o dia. Fora o fato mencionado pelo Padre Vieira, de que os grandes criminosos são pouco incomodados, porque a sociedade, infelizmente, gosta de discursos simplistas, imediatistas e desinformados.
* Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta