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Violência no Rio

O que a morte de Kathlen tem a ver com Jacarezinho? Tudo!

Se as forças policiais cultivam um histórico de confrontos violentos e um ethos guerreiro, é previsível que os bandidos muitas vezes tomem a iniciativa de disparar

Publicado em 13 de Junho de 2021 às 02:00

Públicado em 

13 jun 2021 às 02:00
Henrique Herkenhoff

Colunista

Henrique Herkenhoff

henriquegh@gmail.com

Morte
Kathleen Romeu, baleada durante operação policial no Rio Crédito: Instagram
Quando estava parecendo que seria possível deixar um pouco de lado a desastrosa operação policial no Jacarezinho, eis que a tragédia se repete, com variações menos importantes do que poderiam parecer. Uma jovem grávida, sem qualquer ligação criminosa, é atingida por um projétil de fuzil. A PMRJ afirma que nem sequer estava realmente realizando alguma operação no local, e que foi simplesmente recebida a bala por traficantes, que seriam os autores do disparo fatídico. Nada a ver com a morte de 27 supostos traficantes em outra região dominada por criminosos, correto? Errado.
Toda troca de tiros em local densamente povoado implica riscos enormes. Se as forças policiais cultivam um histórico de confrontos violentos e um ethos guerreiro, é previsível que os bandidos muitas vezes tomem a iniciativa de disparar. É claro que há policiais mais bem treinados que outros; por outro lado, simplesmente não é possível controlar o “profissionalismo” com que os traficantes vão utilizar seus fuzis.
Portanto, se os tiroteios nas favelas se tornam um modo normal de funcionamento das forças policiais, se eles passam a fazer parte da paisagem, o resto é uma questão de coincidências, sorte e azar. Em um dia morrem policiais, no outro bandidos e, de vez em quando, transeuntes inocentes. A única certeza é a de que os moradores não sabem se poderão sair de casa de manhã, ou voltar à noite, depois de um dia inteiro de trabalho honesto.
Simplesmente não é possível comemorar quando CPFs são “cancelados” e lastimar a morte de uma (no caso duas) inocente, como se fossem episódios independentes. Não, os dois casos e muitos outros são fruto das mesmas decisões conceituais: adotar uma estratégia direta no enfrentamento ao tráfico, direcionada à prisão ou morte dos criminosos, e executar essa escolha rotineiramente nas regiões mais pobres e densamente povoadas, embora nunca em bairros nobres. Aliás, pelo contrário, é evidente que episódios como o do Jacarezinho induzem os criminosos a atitudes cada vez mais agressivas em todo o Rio de Janeiro.
Provar que ninguém foi morto no Jacarezinho senão em legítima defesa resolve o problema jurídico dos policiais diretamente envolvidos. Provar que o tiro que matou Kathlen foi disparado por traficantes, também. Nada disso diminuirá o trauma incorporado ao cotidiano dessa parte da população, muito menos vai consolar os familiares de Kathlen. Nada disso vai modificar o fato de que a operação no Jacarezinho foi um gigantesco desastre estratégico e será julgado nos tribunais da História.
Dias atrás, a inteligência da PMES recebeu a informação de que traficantes invadiriam outro território. Com apoio do Notaer, alguns criminosos foram presos e algumas armas, apreendidas. Sem alarde, sem susto, sem mortos, pelo que pude perceber. Sequer localizei a notícia na imprensa. Muito menos esforço prévio, nada de vítimas colaterais ou sequer incômodo a moradores, pois tudo parece ter sido realizado em um local ermo. Não é à toa que a violência diminui no ES e que nossas polícias têm um índice de letalidade 10 vezes menor. Não é que não possamos melhorar, mas esta operação, sim, merece aplausos (atrasados).

Henrique Herkenhoff

É professor do mestrado em Segurança Pública da UVV. Faz análises sobre a violência urbana e a criminalidade, explicando as causas e apontando caminhos para uma sociedade mais pacífica. Escreve aos domingos

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