Pois é, caro leitor: esta semana, daria para não falar do atentado contra Trump nesta coluna sobre segurança pública? Acho que não, mas ainda estou especulando sobre quem mandou matar Kennedy... bem, pelo menos não vou entrar nesses debates que tanto ocuparam alguns amigos meus: se foi uma farsa ou, ao contrário, uma conspiração de Estados estrangeiros. O episódio nos ensina duas coisas sobre segurança pública.
A primeira delas é que não é possível proteger completamente a vida de ninguém, especialmente se houver outra pessoa disposta a um atentado sem se preocupar muito em sair impune. Fica ainda mais difícil se o ameaçado faz questão de aparecer em destaque em meio a um enorme público ou de abraçar eleitores.
Não, o simples fato de Trump haver sido atingido não implica necessariamente uma falha dos seus guarda-costas. Se ele permanecesse o tempo inteiro trancado em uma fortaleza, seria um pouco mais fácil o trabalho dos agentes federais, mas no meio de uma campanha eleitoral, não.
A segunda é o quanto isso de violência e homicídios são questões culturais. Além dos quatro presidentes assassinados no curso do mandato, outros que sobreviveram a disparos de armas de fogo, os EUA tiveram uns tantos candidatos à cadeira presidencial também vitimados, fatalmente ou não.
O curioso é que, por lá, o risco parece ser bastante concentrado nessa figura mais exposta do presidente da República. Outro detalhe que chama a atenção é que, ao contrário do Brasil, os autores raramente são adversários na eleição. Embora vários dos assassinos fossem suspeita ou comprovadamente malucos de pedra e fanáticos políticos, a motivação não parece ser as paixões que o processo eleitoral às vezes desperta, as trocas de insultos e coisas do tipo.
Ora, dirão, Roma teve muitos imperadores assassinados. Tudo bem, mas o regicida tinha a possibilidade de assumir o trono no lugar da vítima. Além disso, o cargo era vitalício, o sujeito só o deixava morto. Já em outros países e momentos históricos, a violência política partia principalmente do líder. Stalin não foi o único dado a fazer desaparecerem misteriosamente seus próprios colegas e subordinados, mais que os opositores propriamente. Ou seja, nem todo assassinato praticado em contexto das disputas pelo poder tem o mesmo significado em termos de cultura da violência política.
Bem, é claro que a cultura armamentista tem seu papel colateral nos EUA. Os presidentes e candidatos a presidente, por lá, são sempre alvejados por armas de fogo, curtas se a pequena distância, ou fuzis ao longe. Nada de bombas ou facadas.
E também não, não é necessário ser um exímio atirador para representar uma séria ameaça. Com um bom equipamento a preço acessível e que pode ser legalmente comprado praticamente por qualquer cidadão, podemos acertar um alvo a centenas de metros, especialmente se ele está parado, fazendo um discurso no alto de um palanque.
O importante é admitir que o homicídio é uma decisão individual do assassino, mas também uma escolha coletiva por toda a sociedade. Quando esta não acha aceitável nem normal que se resolvam assim as diferenças de opinião e os conflitos de interesse, começam a surgir mecanismos para impedir e dissuadir que seus integrantes recorram à violência; quando a gente aceita notícias macabras ou mesmo a visão de corpos cobertos na rua como parte do cotidiano, é o contrário, pouco ou nada é feito para investigar, punir, prevenir etc.