Embora haja crimes infinitamente mais graves, os crimes patrimoniais são os mais frequentes, a ponto de entrarem no cotidiano da população inteira, até de quem nunca tenha sido vítima. Especialmente os roubos, isto é, aqueles cometidos com violência ou grave ameaça, alteram nossos hábitos, fazendo com que as pessoas deixem de se divertir à noite, por exemplo. E, para os empresários, isso é um pesadelo, às vezes quase inviabilizando sua atividade econômica.
Ao contrário do que a maioria pensa, o cenário era muito pior no passado, sendo comuns os latrocínios. A diferença é que não tínhamos jornais e os delitos ficavam concentrados no campo – lembrando que até poucas décadas atrás, a população era majoritariamente rural – e, por isso, as notícias não iam longe.
Se andarmos mais para trás no tempo, era ainda pior: na maior parte da história, era a própria vítima quem tinha que capturar o criminoso e levá-lo a julgamento. Não, não vivemos a era da violência, pelo contrário: nossos riscos são até menores; o que se agigantou é a aversão ao risco e o medo do crime.
Mas não é disso que a coluna de hoje vai tratar, e sim das maneiras de enfrentar o problema. É que o policiamento ostensivo pode ajudar muito durante o dia em áreas de intenso comércio, por exemplo, mas as evidências são de que os criminosos retornam assim que a polícia deixa o local. Arrombamentos noturnos, por exemplo, não são inibidos, e isso é uma questão difícil quando temos, ao mesmo tempo, uma epidemia de crack. Estabelecimentos mais isolados também ficam à mercê dos bandidos.
Acontece que os crimes patrimoniais são uma espécie de delito cujas estatísticas respondem muito bem quando há uma boa e seletiva investigação sobre aqueles infratores mais ativos ou mais violentos, isto é, contra aqueles que causam maior dano à sociedade. Não dá para prender todos, mas nem é necessário: tem a velha Lei de Pareto, segundo a qual 80% dos crimes são cometidos por apenas 20% dos criminosos. Em outras palavras, basta escolher bem quais crimes investigar para obter excelentes resultados com um número relativamente pequeno de prisões – o que tem a vantagem adicional de não pressionar a superlotação carcerária.
Ocorre que a Polícia Civil, encarregada dessa atividade, mal consegue atender aos flagrantes trazidos pela Polícia Militar. Com muito custo, houve um reforço no efetivo, mas foi apenas o suficiente para enfrentar os homicídios, que, sem dúvida, deviam ser a prioridade. Hoje vemos que os crimes letais caíram praticamente pela metade.
O que está faltando, então, para enfrentarmos os crimes patrimoniais? Em primeiro lugar, escolher essa nova prioridade. Em segundo, passar a tratar dela sem permitir retrocessos no combate aos assassinatos. E, claro, é preciso compensar os policiais civis que se aposentaram ou pediram aposentadoria nesses anos e até ir além da simples recomposição dos quadros. Se continuarmos priorizando concursos na PM, a desproporção entre o tamanho das duas instituições só vai se agravar e as queixas de demora no atendimento aos flagrantes nunca vai parar.
Como o Tite nunca entendeu, eu explico: estratégia é tudo.