Como prometido na semana passada, vamos continuar analisando a questão das balas perdidas sob outros pontos de vista que não seriam possíveis abordar em uma única coluna, agora falando da gestão de confrontos entre policiais e criminosos.
Em 2018, foram registradas 34 ocorrências desse tipo, que crescerem de maneira rápida e sistemática nos anos seguintes, chegando a 150 em 2020, um aumento de 441% em cinco anos. Como não bastasse, o secretário de Segurança afirma que já foram 203 confrontos apenas nos cinco primeiros meses de 2023, o que sugere que um número próximo de 500 trocas de tiros em ações policiais ao final deste ano.
Um aumento em torno de 1.500% em apenas cinco anos. Felizmente, graças ao profissionalismo de nossas forças de segurança pública, o número de vítimas fatais entre suspeitos, policiais e transeuntes ainda está longe do que se vê no nosso vizinho Rio de Janeiro, mas em que direção estamos caminhando?
Note-se que não se devem apenas contar as vítimas fatais, mas também o clima opressivo que se forma em qualquer local que seja palco constante de bangue-bangue e o quanto isso assusta até quem, mesmo morando mais distante, percebe que está no alcance teórico de um tiro de fuzil.
Claro que o criminoso não tem nenhuma espécie de justificativa para atentar contra a vida dos trabalhadores da segurança pública. Também é indiscutível que um policial não pode se acovardar, devendo cumprir suas missões mesmo com risco pessoal. Contudo, as coisas são postas de maneira maniqueísta, como houvesse a escolha apenas entre a omissão diante dos crimes ou o confronto armado, que seria uma decisão exclusiva dos meliantes; como se a exposição de servidores públicos e cidadãos próximos fosse inevitável. Isso simplesmente não é verdade.
Filmes de faroeste ficariam muito sem graça sem aqueles tradicionais duelos, mas essa não é a única maneira de atuação das polícias; na verdade, além dos efeitos colaterais, é a menos eficaz de todas. É perfeitamente possível substituir muito disso por investigação e levantamentos de inteligência, reduzindo não apenas quantidade de operações como a probabilidade de resistência armada com um aumento na efetividade prática. Ou seja, mais resultados com menos riscos.
Quem diz isso não é este colunista, mas as Forças Armadas norte-americanas que, depois de muitos anos de experiência enfrentando insurgentes no Oriente Médio, perceberam ser contraproducente ter muitos mortos, mesmo que exclusivamente entre terroristas.
Os generais americanos passaram a utilizar quase exclusivamente operações “stitch”, em que unidades pequenas, altamente treinadas e dispondo de muita informação desempenham missões cirúrgicas contra alvos de alto valor estratégico, em vez de tentar exterminar os talibãs aos milhares, coisa que eles descobriram ser impossível.
Um certo número de intervenções policiais será inevitável, até porque os criminosos não cumprem voluntariamente os mandados de prisão expedidos contra eles, nem entregam as provas de mão beijada, mas existem maneiras toscas, com visão de túnel e meramente operacionais de conduzir esse processo; e há outros modos mais aguçados de fazer segurança pública, que privilegiam os resultados estratégicos e evitam danos colaterais. Isoladamente considerado, um confronto é, realmente, decisão do suspeito, mas a quantidade total de deles é, indubitavelmente, consequência das decisões tomadas nas as camadas superiores de cada governo.