É meio óbvio comentar que, embora muito tenha sido feito nos últimos 20 anos, o número de homicídios no Espírito Santo ainda merecerá especial cuidado por muitos anos. Contudo, as águas já baixaram o suficiente para que outros problemas, até então meio submersos, comecem a cobrar atenção da população e das autoridades, como os crimes patrimoniais.
Por outro lado, além de serem muito frequentes, as mortes em acidentes de trânsito parecem estar aumentando, se bem que o período de pandemia e as instabilidades da economia possam ter afetado a quantidade de veículos em circulação.
Não cabe, mesmo, acomodação, e a sociedade não está errada em cobrar, assim como as torcidas não querem viver das glórias do passado de seus times. E, de fato, embora ainda não seja o caso de retirar pessoal e outros recursos do combate aos assassinatos, há espaço para que novos reforços nas polícias sejam direcionados a outros crimes.
Outro detalhe é que simplesmente aumentar o número de prisões começaria a forçar o acúmulo de processos no Judiciário e a superlotação carcerária. Ou seja, reforços aqui exigiriam mais contratações em outros órgãos públicos, em uma rosca sem fim. Aumentar indefinidamente as despesas públicas nunca será uma estratégia eficiente.
O segredo, aqui é ter cada vez mais “valor agregado” ao trabalho das polícias, em vez de buscar maior volume. Em outras palavras, é fazer investigações cada vez mais profundas e direcionadas aos criminosos mais perigosos ou mais ativos, gerando mais impacto na violência contra o cidadão sem necessariamente criar mais despesas na outra ponta.
Um exemplo fácil de encontrar é a pequena proporção de crimes contra o patrimônio investigados. Na verdade, como sabe disso, a população muitas vezes nem sequer comunica sua ocorrência às autoridades, a não ser que precise do boletim para receber o seguro ou se precaver do uso indevido de seus documentos de identidade.
Isso ocorre porque simplesmente ainda não há policiais civis suficientes. Ocorre que não é preciso resolver cada uma das queixas, porque o ladrão e o receptador costumam ser os mesmos na maioria dos casos. Ou seja, é possível reduzir muito as nossas estatísticas tirando de circulação somente um pequeno número de criminosos.
Como o governo anunciou um muito necessário concurso para a Polícia Civil, dá para fazer um trabalho muito frutífero com poucos recursos adicionais, sem lotar a cadeia ou o fórum. No mais, é assim que funciona, a torcida comemora um campeonato com olhos voltados para o próximo.