O governador anunciou recentemente a manutenção do comando na Polícia Militar, Polícia Civil e Corpo de Bombeiros. Enquanto isso, o governo federal não deixa pedra sobre pedra na estrutura de comando de seus órgãos policiais e, embora meio engessado, muda o que pode nas Forças Armadas. Sobrou até para a Secretaria de Segurança do DF. Seria apenas pelo fato de haver uma ruptura na esfera federal e uma continuidade da estadual?
Por aqui, a justificativa é que as estatísticas de homicídios estão melhorando e não se mexe em time que está ganhando. Podemos ir mais longe: quando se trata de segurança pública, é preciso pensar duas vezes até quando estamos empatando. Quando se troca um comandante, as perdas são grandes e irrecuperáveis; é como se todas as obras ficassem inacabadas. Raramente alguém consegue deixar as coisas dispostas de tal maneira que não sofram uma solução de continuidade, assim como é raro quem entra ter essa visão de terminar o que começaram.
Por isso mesmo, entre muitos outros motivos, políticos e policiais devem guardar uma distância regulamentar, para evitar contaminações, relações espúrias e quebra de hierarquia. Aliás, começa que uns estão de passagem e são responsáveis pelas grandes diretrizes estratégicas, enquanto outros são servidores de carreira encarregados da rotina e da parte operacional.
Governador não tem que saber atirar, assim como as prioridades da segurança não devem ser definidas pelo soldado em patrulha. É um (não tão) difícil equilíbrio entre a proximidade e a distância entre líderes e liderados.
Claro, é uma decisão inteiramente pessoal do governador estar satisfeito ou não com a cúpula da segurança pública. Não cabe a ninguém concordar ou discordar. O governador pode até justificar publicamente, se quiser, mas apenas por razões políticas. De um ponto de vista estritamente racional, as operações mentais que o levam a manter ou trocar são insondáveis e só se prestam contas delas nas urnas. Se isso fosse uma coluna jurídica, diríamos que é um juízo plenamente discricionário.
Já em Brasília, o mundo assiste estarrecido a dois espetáculos de irracionalidade. O menos importante deles proporcionado pelos manifestantes que resolvem invadir prédios públicos, como se houvesse alguma chance de isso virar um golpe de Estado. Muito mais grave e preocupante, contudo, é que autoridades constituídas tenham deixado o Putsch da Cervejaria chegar a esse ponto, como se houvessem sido apanhadas de surpresa.
Não é simplesmente uma sucessão de governos em ruptura; não é apenas uma crise de comando, algo que se resolva trocando pessoas, o que serve apenas emergencialmente. Tanto o ministro da Justiça como o da Defesa precisarão rever conceitos e estruturas.