Outra vez as manchetes são ocupadas por um dramático e totalmente evitável acidente, desta vez o atropelamento de mãe e filha. O detalhe é que já temos mais mortes no trânsito que homicídios propriamente ditos. É óbvio o interesse do leitor nesse lastimável episódio, mas esse assunto não pode vir às nossas mentes apenas quando acontece uma tragédia, pelo contrário.
Quase todos nós somos, em parte do nosso dia, responsáveis por conduzir um veículo por aí. Esse é exatamente o momento em que devemos ter em mente as imprevisíveis consequências de pequenos deslizes. A gente fura um sinal aqui, excede a velocidade ali e geralmente não dá em nada. Nem mesmo recebemos uma multa. E vamos repetindo esses comportamentos inadequados como se fossem corretos. Até que um dia o mundo cai sobre nossas cabeças e achamos que foi puro azar...
Ao que parece, uma parcela significativa da população acha que sinais fechados não são para serem obedecidos. Estão lá no máximo como um indicativo de atenção. Para outros, são simples enfeites natalinos fora de época: nem sequer diminuem a velocidade.
É importante reiterar que os causadores dessas tragédias não são muito diferentes do condutor médio. Todos nós, como seres humanos, somos sujeitos a pequenas distrações e outras falhas que, apesar de corriqueiras, podem ter desdobramentos muitos graves. Além disso, raros dentre nós cumprem estritamente as regras de trânsito que, inclusive, são feitas para compensar parte dessas falhas humanas.
Isso implica ser um erro gravíssimo apostar em penas estratosféricas para aqueles que dão causa a essas manchetes nos jornais, ainda mais quando sabemos que a regra é a completa impunidade de quase toda infração que não dê causa a vítimas fatais.
Repito: a violência no trânsito é responsabilidade difusa de praticamente todos nós que participamos dele, especialmente dos que guiam veículos automotores. É nas “pequenas”, mas repetidas, infrações que mora o problema. Então não adianta aplicar os mais terríveis castigos a uns poucos, mas assegurar a cada motorista renitente uma multinha para chamar de sua.
Ah, sim, afirmo isso partindo de um pressuposto: muito poucos são os condutores que seguem à risca as normas do Código Nacional de Trânsito. Talvez não haja nenhum. E, embora campanhas publicitárias de conscientização possam ter um papel positivo, nada como um puxão de orelha e uma espetada no bolso para nos acordar para a realidade.
E não me iludo: eu provavelmente também serei premiado com uma cartinha da prefeitura. Espero que poucas. Ninguém ou quase ninguém ficaria de fora se a fiscalização for apertada, seja pela proliferação de instrumentos automatizados de controle do tráfego, seja por um aumento da fiscalização humana.
Em resumo, é isso: como catástrofes são produto de pequenas e repetidas más decisões dos motoristas, não de um ato isolado que desde o início já se sabia que terminaria em vítimas fatais, precisamos focar o varejo, advertir e punir as infrações corriqueiras, em vez de reagir com excesso depois que o sangue já está na calçada.