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História

Como os jornais noticiaram a gripe espanhola no Espírito Santo em 1918

No Espírito Santo daquele período, com menos de 500 mil habitantes e infraestrutura precária, uma das medidas para enfrentar o inimigo foi similar à estratégia de combate ao novo coronavírus, ou seja, isolamento social

Publicado em 21 de Abril de 2020 às 05:00

Públicado em 

21 abr 2020 às 05:00
Herbert Soares

Colunista

Herbert Soares

herinter@hotmail.com

Praça João Miguel, na Serra, em 1908
Praça João Miguel, na Serra, em 1908: 21 pessoas morreram durante a pandemia que começou em 2018 Crédito: Acervo do Iphan-ES
“A gripe propalou-se em todo o município com a intensidade terrorista das grandes calamidades”. Tal referência, publicada no “Diário da Manhã”, influente jornal do Espírito Santo, destaca a gravidade, no município da Serra, da pandemia mundialmente conhecida como gripe espanhola que também atingiu o Estado no último trimestre de 1918.
Inicialmente negligenciada no Brasil, “a espanhola”, nome popular do vírus da gripe, o “influenza”, ficou conhecida dessa forma por componentes políticos relacionados à Primeira Guerra Mundial e porque a Espanha, neutra durante o conflito, ao contrário de muitos países, não censurava informações sobre os perigos da enfermidade que, no fim, vitimou cerca de 50 milhões de indivíduos pelo mundo.
No Espírito Santo daquele período, com menos de 500 mil habitantes e infraestrutura precária, uma das medidas para enfrentar o inimigo foi similar à presente estratégia de combate ao novo coronavírus, ou seja, isolamento social. Escolas fechadas, funcionamento do comércio prejudicado e população dentro de casa, tudo para evitar aglomerações e conter o avanço de um vírus que se mostraria devastador até para adultos jovens e saudáveis.
No município de Muqui, conforme o “Muquyense”, 60% dos moradores foram afetados, resultando na morte de duas mulheres, Maria Alves e Ercília Bartossano Dutra, de 28 e 22 anos, respectivamente. Em Muniz Freire, outro a contar inúmeras ocorrências, merece ênfase o relato de seu noticioso, o “Espirito Santo”, ao repercutir as consequências da doença: “Quanto sofrimento, quanta ansiedade, por essas humildes habitações do interior do Brasil, afastadas umas das outras, cujos habitantes se viam a só, isolados, todos doentes ao mesmo tempo, sem terem mão amiga e generosa que lhes desse um caldo!”.
Já em Cachoeiro de Itapemirim, a elevada propagação comprometeu a produção do jornal “O Cachoeirano” e aumentou o número de infectados na Santa Casa de Misericórdia, além de mobilizar a sociedade local na assistência aos indigentes adoecidos, que eram visitados três vezes por semana. Embora sem nenhum falecimento determinado apenas pela gripe, contabilizou-se no município, de acordo com o citado periódico, 23 óbitos “oriundos da atual pandemia complicada com outros estados mórbidos”.
Na Serra, do surgimento dos primeiros casos até o dia 10 de janeiro de 1919, morreram 21 pessoas em decorrência da “espanhola”, incluindo a senhora Ana Campos Marques, de Jacaraípe, e o menino Luiz Cláudio, filho do funcionário do Tesouro, Celso Cláudio de Freitas Rosa e sobrinho do vigário da capital, padre Luiz Cláudio. Todavia, passado o mês de janeiro, segundo comunicado do prefeito Adolfo Fraga, agora os serranos encontravam-se livres da moléstia.
Finalmente, superado o pico de contágio, as estatísticas oficiais revelariam o tamanho da adversidade que esteve diante dos capixabas: em poucos meses a “gripe espanhola” matou 123 cidadãos do Espírito Santo, tornando-se a principal causa de morte no Estado em 1918.

Herbert Soares

É mestre em História pela Ufes. Neste espaço, a história capixaba é a protagonista, sem deixar de lado as atualidades. Escreve às terças.

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