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História

Revolução Haitiana: uma história de enfrentamento do racismo

A revolução haitiana, ocorrida entre 1791 e 1804, foi aquela que construiu a primeira república negra conduzida por ex-escravizados, ligados à ideia de universalização dos direitos humanos

Publicado em 17 de Junho de 2023 às 00:25

Públicado em 

17 jun 2023 às 00:25
João Gualberto

Colunista

João Gualberto

Haiti
Batalha em Santo Domingo, pintada por January Suchodolski. Revolução Haitiana Crédito: Wikimedia Commons
As chamadas revoluções atlânticas – a independência americana, a revolução francesa e a revolução haitiana - são definidoras da construção da contemporaneidade. Foram, na verdade, a materialização das ideias iluministas. As estruturas sociais e históricas que sustentaram as aristocracias no poder no velho regime, vigente até então em todos os países do mundo, foram então desconstruídas.
No plano das ideias, isso se deu a partir do século XVII, mas sobretudo no século XVII. A transformação através das revoluções, de uma lógica que passou a respeitar a vontade popular e os princípios republicanos, ocorreu quase que ao mesmo tempo, na segunda metade do século XVIII. Das três revoluções atlânticas a menos conhecido é a haitiana.
Vale o registro de que todas elas tiveram influência para além das suas fronteiras nacionais, impactando a construção de um outro mundo, reconfigurando a noção de liberdade, de sujeito e de cidadania. Nelas, a ideia de revolução com a desconstrução da ordem que havia, vingou. Implantaram a noção claro de que o mundo não precisa ser regido por uma ordem social estática e criada por desejo divino.
Pensemos primeiro no que passou nos Estados Unidos entre 1776 e 1783. Lá, devido a sua construção democrática, a independência nacional foi também a independência dos indivíduos. A nova ordem foi baseada nos interesses das pessoas. Negou a ordem que estava implantada a despeito de todos. Legou ao mundo todo uma constituição baseada nos ideais liberais, o que não era pouco para o seu tempo, embora tenha colocado no poder elites escravistas que alienaram os escravizados de todo esse processo. Ainda assim, serviu de farol para muitas sociedades, alimentando outros processos revolucionários.
A segunda revolução do atlântico foi a Revolução Francesa, marcada pela queda da bastilha em 1789, tida por muitos como a mais importante por sua capacidade de romper com o absolutismo, não apenas em seu país de origem, mas em toda a Europa. Atingiu em cheio a ordem social de todo o continente, enfraquecendo os regimes aristocráticos vigentes. Produziu a ideia da fraternidade, da igualdade, da liberdade, permitiu o surgimento da imprensa moderna. As duas revoluções de que falamos produziram as duas primeiras repúblicas com base democrática. O republicanismo é uma consequência direta delas. A revolução francesa foi tão importante, que marca o início do mundo contemporâneo.
A revolução haitiana, ocorrida entre 1791 e 1804, foi aquela que construiu a primeira república negra conduzida por ex-escravizados, ligados à ideia de universalização dos direitos humanos. A noção do humano construída pelas revoluções não deveria excluir os então escravizados, vítimas da diáspora africana. A convivência de escravização e repúblicas ficou problematizada. A resposta foi o ódio das grandes nações de todo o mundo. A grave situação social do Haiti até hoje é a resposta que foi encontrada.
Na verdade, Napoleão conduziu o massacre do levante, que ousou pensar que os princípios do iluminismo eram mesmo universais. Até hoje a história da crença dos negros do Haiti de que a condição humana os incluía é um alerta para os limites sociais do republicanismo e do próprio iluminismo. Assombrou inclusive as elites escravagistas brasileiras. Por isso o silêncio, por isso o esquecimento. O grande líder desse movimento foi Toutsaint Louverture, o grande jacobino negro, um notável estrategista. Nada sabemos dele. Em tempos de enfrentamento ao racismo, vale chamar a atenção para aqueles ousaram lutar por ideias que melhoraram a vida de muitos e que radicalizaram o iluminismo.

João Gualberto

É professor emérito da Ufes, doutor em Sociologia Política pela Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais (França). Foi Secretário de Cultura do Espírito Santo entre 2015 e 2018. História e sociologia do cotidiano. Um olhar sobre o Brasil e o Espírito Santo

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