Foi uma feliz coincidência Fernanda Torres ter sido escolhida como a melhor atriz em filme dramático no Globo de Ouro pela sua participação em “Ainda estou aqui”, dois dias antes do 8 de janeiro, data em que, em 2023, uma multidão de vândalos, insuflada pelos mentores da frustrada tentativa de golpe de Estado, depredou os prédios dos três poderes em Brasília.
Foi também muito oportuno que o mesmo filme tenha recebido o Oscar de melhor filme internacional em um momento que Donald Trump encena o seu espetáculo – assinando quase uma centena de decretos e distribuindo ameaças a outros chefes de Estado – na sua evidente tentativa de se tornar o líder do mundo.
“Ainda estou aqui” reconstrói o episódio do desaparecimento e a morte do deputado Rubens Paiva, preso e morto pelo governo militar, na época dos “anos de chumbo” (1964-1985), período no qual os governantes assumiram poderes totalitários que abriram espaço para prisões, torturas e assassinatos de sabe-se lá quantos brasileiros, sem que fosse a eles assegurado qualquer direito de defesa.
Coube ao filme relembrar parte desses tristes momentos, escancarando para o mundo o que representa para a sociedade o cerceamento das liberdades democráticas. E, como bem pontuou o diretor Walter Salles nas entrevistas que participou após receber a premiação do Oscar, além de reconstruir essa “história que pensávamos ser apenas o reflexo do nosso passado”, aos poucos tanto o elenco do filme como nós, brasileiros e espectadores, “compreendemos que era também um filme sobre o nosso presente”.
Ouso dizer que o momento presente de ameaças à democracia ocorre no nosso Brasil, mas não é somente brasileiro. A eleição e posse de Trump nos Estados Unidos, e seus arroubos autoritários que ditam ordens e cometem atos os mais absurdos tanto na política comercial como na diplomacia (ou na falta de) – sem falar das tratoradas que desrespeitam os próprios servidores do seu governo – só fazem reforçar a sua fama de alguém que despreza a democracia como, aliás, ocorreu ao estimular a invasão do parlamento, em Washington, em 6 de janeiro de 2021.
Os avanços conquistados pelos partidos extremistas, tanto à direita quanto à esquerda, em vários países, acendem o sinal de alerta de que a democracia sofre ameaças em todo o mundo. Inclusive no Brasil que, apesar da derrota de Bolsonaro nas eleições de 2022 e de ele ser inelegível nos próximos 8 anos, vive um momento permanente de polarização entre as correntes que se alinham à esquerda e à direita do espectro político. Correntes que, aliás, abrigam os que chegam a defender uma incompreensível anistia aos vândalos, aos financiadores e aos que planejaram as depredações do 8 de janeiro e a retomada do poder pela força.
Antes de Trump reassumir a presidência americana, havia a esperança de que as correntes políticas moderadas, distantes das extremas esquerda e direita pudessem assumir um maior protagonismo e gestassem, tanto no Brasil quanto no resto do mundo, lideranças capazes de dar um rumo de sensatez aos debates sobre o futuro da humanidade em temas de grande importância como a redução das desigualdades e de proteção ao meio ambiente. Mas aí chega Trump, mais histriônico do que nunca, e rouba a cena com a sua megalomania de conquistar territórios e desprezo pelas emergências climáticas.
Tudo isso nos leva a crer que o justo reconhecimento do valor do filme “Ainda estou aqui” e a sua mensagem transcendem a arte cinematográfica e o universo cultural para se tornarem um sinal de alerta de que o mundo tem muito a perder se ceder espaço a quem descrê na democracia e sente saudades dos regimes de força.
Nada substitui a liberdade e os direitos individuais de expressão, de ir e vir, de igualdade, de segurança, intimidade e honra, direitos esses que foram – e ainda são – esmagados pelos extremistas que, à esquerda e à direita, sustentam tantos regimes ditatoriais no mundo.