As eleições se encerraram, o resultado foi proclamado com a vitória de Lula, e Bolsonaro permanece em silêncio, muito provavelmente para não ter que reconhecer a sua derrota. Sem colocar as suas digitais à frente, insistiu para que o seu partido, o PL, ingressasse no Tribunal Superior Eleitoral com um pedido de anulação de 279 mil urnas de fabricação anterior a 2020 utilizadas no segundo turno das eleições, alegando que essas urnas não seriam auditáveis por terem um único número de série. Curiosamente – seria melhor dizer espertamente – não foi pedida a anulação dessas mesmas urnas no primeiro turno das eleições.
Não é preciso ser adivinho para perceber que a Bolsonaro não interessa contestar o resultado do primeiro turno das eleições, já que o seu partido, o PL, elegeu a maior bancada da Câmara dos Deputados. E que seu candidato ao governo de São Paulo foi vitorioso. E, ainda, que numerosos correligionários seus conquistaram cadeiras no Senado. Assim, o que interessa aos bolsonaristas é tentar melar o segundo turno que deu a vitória a Lula. Com a anulação dos votos das 279 mil urnas (60% do total), a vitória no segundo turno seria de Bolsonaro.
A iniciativa do PL – partido presidido pelo ex-deputado Valdemar Costa Neto, um dos condenados no escândalo do mensalão – não surpreendeu porque o propósito de Bolsonaro em tentar melar as eleições já estava desenhado há muito tempo. Dia sim e outro também, Bolsonaro revelava duvidar das urnas eletrônicas, chegando ao desplante de garantir que teria vencido no primeiro turno em 2018 e que, em 2014, Aécio Neves teria derrotado Dilma Rousseff. Ou seja, Bolsonaro criou e alimentou a versão de fraude eleitoral para, em caso de derrota, continuar proclamando que foi roubado. Um script que é uma cópia do que Donald Trump fez e faz nos Estados Unidos.
O que Bolsonaro não esperava – e muito menos o seu amigo Valdemar – era a reação vigorosa do ministro Alexandre de Moraes, presidente do TSE. Moraes, alegando litigância de má-fé – já que a ação não apresentava qualquer prova de fraude eleitoral –, não só rejeitou o pedido do PL, como aplicou ao partido uma multa de R$ 22,9 milhões, além de incluir Valdemar Costa Neto no inquérito das milícias digitais antidemocráticas. Para garantir o pagamento da multa, Moraes bloqueou R$ 13,5 milhões do fundo partidário que o PL mantém no Banco do Brasil.
A base de apoio de Bolsonaro ainda procura manter engajada a militância que acredita na tese da fraude eleitoral e que alimenta as redes sociais de fake news e se mantém acampada em frente às unidades militares em várias partes do Brasil. Nos acampamentos e nas redes sociais o que se ouve são pedidos de intervenção militar e prisão de ministros com dissolução do Supremo Tribunal Federal e do Superior Tribunal Eleitoral. No parlamento, deputados tentam requerer a instalação de uma CPI para investigar abusos de autoridade dos ministros do STF. Ainda sonham, enfim, com algo que possa impedir a posse do presidente eleito.
A história, contudo, segue a sua marcha. A transição que prepara a posse do novo presidente anda a pleno vapor. Daqui a alguns dias Lula será diplomado e empossado. Não importa se com a presença ou a ausência de Bolsonaro. O choro de perdedor do presidente já é uma página virada da história brasileira. A página já virou e só Bolsonaro ainda finge não ter visto.