A política é essencial, como costuma dizer o jornalista Mario Sergio Conti. É através da política que são obtidos os acordos e os consensos que eliminam os conflitos. E conflitos, sabemos todos, se não são negociados, acabam se tornando disputas acirradas e, muitas vezes, guerras de grandes proporções. Veio daí a inspiração dos filósofos que, desde a Grécia Antiga, consideraram a política como a “ciência maior”, ou seja, a mais importante de todas as épocas.
O que ocorreu com a prática política, inclusive no Brasil, é que, muitas vezes, ela acabou descambando para a demagogia, na qual se sobressai um claro interesse de manipular ou agradar a massa popular através da repetição de promessas que não serão realizadas, com o propósito somente de conquistar o poder e vantagens para proveito próprio. Os últimos acontecimentos políticos no Brasil foram recheados de exemplos de como a demagogia corre solta e sem limites.
A começar pelo presidente da República que em julho, dias após editar Medida Provisória que, para beneficiar uma empresa, faz encarecer a conta de luz dos brasileiros por 15 anos, disse em cerimônia de entrega de casas do programa “Minha Casa, Minha Vida” que “as pessoas mais humildes, que muitas vezes não podem pagar o aluguel, quando pagam o aluguel não podem pagar a conta de luz, que está cara”, completando: “Eu estou brigando para baixar a conta se luz nesse país para o povo pobre”. Um claro exemplo de demagogia explícita para tentar enganar os mais carentes.
O mesmo Lula, que passou os primeiros dois anos do seu mandato em duelo permanente com o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto – que era por ele acusado de ser “um adversário político, ideológico” por manter a taxa de juros Selic em 10,5% –, ficou em respeitoso silêncio em setembro quando o mesmo Banco Central, inclusive com o voto de três integrantes por ele indicados – entre os quais Gabriel Galípolo, que assumirá a presidência do banco em janeiro –, decidiu aumentar a taxa para 10,75%. Comportamento bem diferente daquele quando acusava Campos Neto de atuar “contra o Brasil”. Ou seja, seu duelo com Campos Neto não passava de uma encenação para jogar a responsabilidade das mazelas da economia para os ombros de outro personagem.
Mas não é só Lula quem age de maneira dissimulada para alcançar seus objetivos políticos. Jair Bolsonaro, segundo levantamento feito pela plataforma “Aos Fatos”, teria feito 6,6 mil declarações falsas ou distorcidas durante o seu mandato como presidente da República, ou seja, mais de 4 por dia.
Das declarações mais marcantes estão as relacionadas ao negacionismo com relação a pandemia da Covid-19. Além de subestimar a gravidade da doença, Bolsonaro insistiu em recomendar medicamentos ineficazes e em negar os benefícios do distanciamento social, além de colocar em dúvida a eficácia da vacinação. Ao tentar desacreditar as urnas eletrônicas, contribuiu para a construção de um ambiente propício a um golpe de Estado, o que resultou na depredação dos prédios dos três poderes da República em 8 de janeiro do ano passado.
Em 2014, um vídeo exibido pela campanha de Dilma Rousseff contra a candidata Marina Silva se tornou um ícone de demagogia no período eleitoral. No vídeo, uma família via a comida sumir dos pratos à mesa ao mesmo tempo em que, em outra cena, banqueiros tomavam decisões sobre a condução da economia do país. Era uma crítica demagógica à proposta de Marina de tornar o Banco Central independente. Um ministro do TSE, quatro anos depois, chegou a definir tal propaganda como “uma fake news” que causou “o derretimento de uma candidatura que era considerada exitosa”.
Nesse mar de artimanhas político-demagógicas, Lula é o grande destaque. Recentemente, quando esteve em Nova York para discursar na ONU, ele promoveu, à margem da Assembleia Geral, um encontro com o título “Em defesa da democracia. Combatendo o extremismo”.
Pois nesse mesmo encontro, divulgado como se fosse uma conclamação democrata, Lula não mencionou uma vez sequer a fraude eleitoral na Venezuela que “reelegeu” o seu amigo Maduro. Foi, por isso, repreendido pelo presidente do Chile, Gabriel Boric que criticou não ter havido condenações aos “ditadores de turno” que promovem “violações dos direitos humanos” citando, entre outros, “Maduro na Venezuela, Ortega na Nicarágua e Vladimir Putin na Rússia”.
Se a política é essencial, e se a demagogia é a deturpação da política, seria possível sonhar com um pacto a ser firmado pelos partidos e suas maiores lideranças para banir a demagogia da política brasileira? Pelo desenrolar das últimas campanhas eleitorais, principalmente a de São Paulo, tal sonho não tem a menor chance de se tornar realidade no curto prazo. Infelizmente.