Não são poucos os interessados no fim da Lava Jato, a maior operação de combate à corrupção da história do Brasil. Além das forças políticas ligadas aos investigados e condenados – que sonham com o retorno da impunidade que há séculos impera no país – se alinham profissionais do Direito que representam os acusados, parte do empresariado que vivia (ou ainda vive) nas sombras dos interesses escusos que sugam, tal como parasitas, o dinheiro público, e até mesmo setores importantes do Poder Judiciário.
Só isso explica a numerosa sucessão de iniciativas que prosperam nos três poderes da República com o nítido propósito de colocar um fim nas ações de combate à corrupção. A começar pelo Congresso Nacional, onde está boa parte dos investigados acusados de atos de corrupção ou os que se alinham, por questões ideológicas, partidárias e até mesmo de idolatria, a condenados em processos gestados na Lava Jato. Foi o Congresso que deformou o pacote anticrime e aprovou a chamada lei contra o abuso da autoridade que cerceou a atuação dos juízes e investigadores.
O Supremo Tribunal Federal também deu contribuições expressivas para prejudicar os passos da Lava Jato como, por exemplo, a proibição das prisões dos condenados em segunda instância e a anulação das condenações nas quais os réus haviam apresentado alegações finais simultaneamente às dos delatores.
Se isso não bastasse, o governo federal tem atuado para torpedear a Lava Jato, embora o presidente da República tenha sido eleito jurando que iria fortalecê-la. A saída de Sérgio Moro do Ministério da Justiça escancarou para o país o propósito do presidente da República de interferir nas investigações da Polícia Federal que se aproximam da sua família. Antes disso, a retirada do Coaf, o Conselho de Controle das Atividades Financeiras, do âmbito do Ministério da Justiça já sinalizava um esvaziamento da pasta de Moro.
Mais recentemente, a atuação do Procurador Geral da República criticando a Lava Jato e determinando o compartilhamento dos dados das suas investigações – felizmente interrompido pelo ministro Edson Fachin, do STF – desnuda o propósito do governo de implodir de vez a operação, como um aviso prévio de que a atuação das forças-tarefas poderá ser interrompida em setembro quando deveria ser renovada.
Há dois anos, ao participar como palestrante do evento “Diálogos sobre Integridade”, realizado pela Rede Gazeta, o procurador Carlos Fernando da Silva Lima, na época integrante da força-tarefa da operação em Curitiba, afirmou que todos os que atuam na Lava Jato estavam “na linha de tiro, com a cabeça a prêmio”. É possível ver hoje, com muita nitidez, que ele estava coberto de razão.