O presidente Bolsonaro, já que vivemos em um regime democrático, tem todo o direito de defender a implantação da urna eletrônica com cópia impressa do voto. Mas afirmar, sem apresentar provas – e o TSE já lhe deu a oportunidade de apresentá-las – que as eleições de 2014 foram fraudadas porque Aécio Neves, e não Dilma Rousseff, teria sido, na verdade, o vencedor, é abusar do direito de falar bobagens. O próprio Aécio confessou que só pediu uma auditoria após as eleições para “encher o saco” da vencedora. E o candidato a vice de Aécio, Aloysio Nunes, admitiu que “a eleição foi limpa” e que a sua chapa perdeu “porque faltou voto”.
Bolsonaro vive a repetir também que as eleições de 2018 também teriam sido fraudadas porque ele teria tido mais de 50% dos votos no primeiro turno. Mas também não apresenta provas. Provas que, todos sabemos, não existem.
O presidente não se limita a lançar suspeições sobre as eleições passadas. Seu alvo predileto são as eleições do ano que vem. Com as pesquisas indicando que suas chances de vitória estão derretendo, Bolsonaro aumenta cada vez mais o tom ao afirmar que “o lado” dele “pode não aceitar o resultado”. Não foi a primeira vez que o presidente insinua que não aceitará o resultado das eleições. Em 22 de dezembro ele já havia dito que “se a gente não tiver voto impresso, pode esquecer eleição em 22”. Em 6 de maio repetiu: “Se não tiver voto impresso, é sinal que não vai ter eleição; acho que o recado está dado”.
Diante de tantos destemperos, o TSE promoveu uma esclarecedora campanha em defesa da urna eletrônica, considerada como parte de um sistema que garante ao processo eleitoral “integridade, confiabilidade, transparência e autenticidade”. As urnas eletrônicas são usadas há 25 anos e nunca se constatou qualquer fraude.
A urna não está conectada a qualquer rede, o que impossibilita a invasão por hackers; é lacrada de modo a impedir a inserção de qualquer dispositivo estranho; a cada eleição são realizados testes públicos de segurança; a criptografia garante o sigilo do voto; a emissão da zerésima atesta que no início da votação nenhum voto foi computado; e, ao final da votação, o boletim de urna apresenta, impresso, o resultado que pode ser conferido pelos partidos e eleitores.
A campanha de esclarecimento irritou Bolsonaro, que chegou a chamar o presidente do TSE de “imbecil” e “idiota”, o que demonstra um destempero que beira à irresponsabilidade. Foi por isso que recebeu um pito do presidente do Supremo e crítica de seis ex-procuradores da República – entre os quais Raquel Dodge, Rodrigo Janot e Sepúlveda Pertence – por fazer “insinuações sem provas”.
Cada vez mais fica evidente que tudo não passa de choro antecipado de um provável perdedor. Aliás, repetindo o que fez nos Estados Unidos o ídolo de Bolsonaro, Donald Trump.