O Brasil passou a trágica marca dos 100 mil mortos pela Covid-19. É o segundo país com maior quantidade de mortes do mundo, somente atrás dos Estados Unidos. Com um agravante: a quantidade de infectados e de mortes decorrentes da pandemia não para de subir. Não é coincidência que os dois países que estão no topo desse ranking macabro são dirigidos por presidentes negacionistas que parecem ou fingem não acreditar que o mundo enfrenta a maior catástrofe do último século.
E não adianta torturar os números, repetindo afirmações de que, proporcionalmente à população, a Espanha ou o Reino Unido tenham tido mais mortes que o Brasil. Na marcha em que a pandemia se alastra, essa proporção provavelmente também será ultrapassada em breve, escancarando ainda mais a incompetência que o governo federal demonstra no enfrentamento da tragédia, evidenciada pela indiferença que o presidente da República dedica à doença.
Para o presidente, a pandemia não passa de uma “gripezinha”, uma “chuva” que deveria ser tratada com um medicamento comprovadamente ineficaz e contraindicado. O uso da máscara, pensa o presidente, é uma bobagem, assim como a recomendação de que as aglomerações devem ser evitadas. Desde que o primeiro caso da Covid-19 foi anunciado, o presidente prega contra o isolamento social. Não é à toa que dois dos seus ministros da Saúde pediram o boné diante de tantas asneiras.
O pior, contudo, é a indiferença com que o presidente trata a quantidade de mortos. Quando o país registrava 10 mil mortes, o presidente foi andar de jet-ski no Lago Paranoá. Em outras ocasiões, preferiu posar, sem máscara, nos fins de semana, em selfies em postos de gasolina, e em exibição de tiros em quartéis militares. Chegou a insinuar que os hospitais não estavam superlotados. E a tratar a catástrofe com pouco caso, fazendo piadas com coisa séria. “Não sou coveiro”, disse em abril. “E daí? Quer que eu faça o quê?”, gracejou poucos dias depois.
Para o presidente, parece que as 100 mil mortes não existem. Nem o fato de ele próprio ter contraído o vírus e de ver a sua mulher e boa parte de seus ministros contaminada, foi capaz de sensibilizá-lo. Prefere fingir que está tudo bem e fazer campanha montando a cavalo, vestindo chapéu de vaqueiro e agredindo os governadores.
Na vida real, contudo, a pandemia avança com o Brasil contabilizando mais de mil mortos por dia, quase uma vítima por minuto. No nosso pequenino Espírito Santo, uma morte por hora. As sirenes de ambulância que ouvimos a todo instante estão aí para nos lembrar que o perigo continua por perto. Os 100 mil brasileiros mortos são reais, todos sabemos disso. Menos, ao que parece, o presidente da República.