A caminho do cemitério, passei pela Avenida Civit (hoje denominada de Eudes Scherrer de Souza) que dá acesso ao Parque Residencial Laranjeiras. As boas recordações foram inevitáveis. Nelas, Arízio Varejão Passos Costa falava entusiasmado daquela que, até então, seria a maior obra do Inocoop-ES – o Instituto de Orientação às Cooperativas Habitacionais no Estado do ES –, um conjunto residencial com mais de 1,8 mil casas destinadas a trabalhadores com renda a partir de 2 salários mínimos.
Creso Euclydes se debruçava na prancheta buscando a melhor distribuição para as casas. E cabia a Luiz Guilherme Santos Neves organizar a documentação do terreno a ser apresentada ao Banco Nacional da Habitação, a quem caberia aprovar o financiamento da grande obra.
Até então, tudo ainda era um sonho que se chamava, na nossa intimidade, “Carapinão”. Um sonho porque muitas coisas ainda precisavam ser planejadas e providenciadas. Como, por exemplo, o abastecimento de água e luz, os acessos, o tratamento e o destino do esgoto, os equipamentos comunitários e a seleção, pelo serviço social, dos nomes dos futuros adquirentes das unidades residenciais. A partir daí eram formadas as cooperativas habitacionais que seriam as promotoras do grande empreendimento.
Participei, com Arízio, Creso, Luiz e tantos outros da equipe do Inocoop-ES, da escolha do nome do grande conjunto residencial. Afinal, “Carapinão” parecia mais nome de estádio de futebol. Opinei pela escolha de “Laranjeiras”, que era o nome da região (eu sempre defendia a manutenção do nome original do local), e quase fui vencido porque já havia outro bairro, nas proximidades, com o mesmo nome. Veio daí a ideia de incluir o “Parque Residencial” antes de “Laranjeiras” para ser o diferencial, o que acabou prevalecendo.
Coube a Luiz Guilherme, sempre ponderado e atento, advertir sobre os cuidados que deveríamos tomar na aprovação dos projetos, já que o partido urbanístico idealizado por Creso mudava o traçado sinuoso da ES 010 que liga Vitória a Manguinhos e Jacaraípe. Prevaleceram os argumentos de Creso (que, diga-se de passagem, eram corretíssimos) de que o conjunto exigia uma avenida de grandes proporções, três pistas de cada lado em linha reta.
E assim se fez. Hoje o Parque Residencial Laranjeiras é o polo urbano mais dinâmico de Serra, o município mais populoso do Espírito Santo. Fico feliz e orgulhoso quando alguém, que mora ou trabalha no local ou nos seus arredores, faz elogios e comenta ser feliz ali.
Escolhi comentar essas boas lembranças – que fazem parte de um conjunto muito maior de relações pessoais e profissionais – para registrar o que invadiu meu coração ao ir à despedida de Luiz Guilherme Santos Neves na última terça-feira (30). É um sentimento fraterno de quem teve o privilégio de conviver com esse ser humano maravilhoso que não só se destacou como advogado, como também como professor universitário e escritor.
Tive o privilégio de ser um dos primeiros a receber das suas mãos o exemplar de “Queimados”, o seu primeiro texto literário, em 1977, que dramatiza a Insurreição de Queimados ocorrida na Serra em 1849, assim como o romance “A Nau Decapitada” de 1982. Acompanhei mais à distância o lançamento das suas obras “As chamas da missa”, romance, 1986, “Torre do delírio”, contos, 1992, “História de Barbagato”, infantil, 1996, “O templo e a forca”, romance, 1999, e “Capitão do fim”, romance, 2001.
Fui informado, na cerimônia de despedida, que Luiz Guilherme continuava produzindo literatura de qualidade tendo deixado uma obra pronta ainda a ser publicada. Fica a nossa torcida para que tal publicação se torne uma realidade para que possamos ter ainda mais um motivo para sentir que Luiz Guilherme continua – e continuará - sempre perto de nós como sempre esteve ao longo de tantos anos de convivência que tivemos o prazer e a honra de desfrutar.