O presidente Jair Bolsonaro, inconscientemente ou não, usa frequentemente, nos seus pronunciamentos, as técnicas presentes nas fake news. Ou seja, suas declarações são, quase sempre, meias-verdades que distorcem os fatos e deixam dúvidas nos incautos. Com isso, lança cortinas de fumaça onde deveria haver transparência.
Em uma de suas últimas declarações, ele afirmou: “Eu acabei com a Lava Jato porque não tem mais corrupção no governo”. Ora, todos sabemos que Bolsonaro tem a clara intenção de acabar com a Operação Lava Jato – tanto que nomeou um procurador-geral da República que age nessa direção – mas isso não quer dizer que a Lava Jato acabou. E nem que não haja corrupção no governo.
Lula também dizia que o seu governo não roubava nem deixava roubar. O mensalão e o petrolão se incumbiram de desmoralizar a sua afirmativa. É bom lembrar que, em agosto de 2019, a Controladoria-Geral da União apontou irregularidades em um edital do Fundo Nacional de Educação que pretendia adquirir 1,3 milhão de computadores, laptops e tablets. O edital foi cancelado em seguida e ninguém sabe ainda a razão do cancelamento e se o responsável foi punido.
Da mesma forma como as fake news têm pernas curtas, embora causem estragos monumentais por onde são disseminadas, uma semana depois um dos vice-líderes do governo no Senado é flagrado com dinheiro vivo na cueca na operação Desvid-19. O senador não integra os quadros do governo, mas fala por ele no Senado e emprega no seu gabinete um sobrinho do presidente. Isso põe em xeque o presidente da República que, no mesmo dia em que anunciou o fim da Lava Jato, afirmou: “Quando eu indico qualquer pessoa para qualquer local, eu sei que é uma boa pessoa”. Fabrício Queiroz está aí para mostrar que não é bem assim.
A intenção do presidente em acabar com a Lava Jato é verdadeira, e isso ficou claro quando ele defenestrou do seu governo o então ministro da Justiça Sérgio Moro. E a razão ficou clara na justificativa apresentada por Moro para deixar o governo: a tentativa do presidente de interferir politicamente na autonomia da Polícia Federal, corporação responsável pelas operações da Lava Jato. Percebendo que as investigações da PF se aproximavam de seus filhos, Bolsonaro exigiu a substituição do diretor-geral da Polícia Federal, exigência que não foi admitida por Moro.
Bolsonaro foi eleito levantando a bandeira do combate à corrupção e elogiando a Lava Jato. Tanto que, após eleito, convidou o então juiz Sérgio Moro para o Ministério da Justiça. Passado pouco mais de um ano e meio de mandato, Bolsonaro rasga de vez a fantasia e não esconde mais – tal como Lula – o seu desejo de celebrar o fim da Lava Jato.
Como disse Sérgio Moro, “as tentativas de acabar com a Lava Jato representam a volta da corrupção”. O senador flagrado com dinheiro na cueca é o exemplo mais recente disso.