A se confirmar a tendência do voto identificada nas pesquisas eleitorais, o Brasil vai, no próximo governo, continuar flertando com o autoritarismo. Os dois candidatos que se posicionam à frente das pesquisas, embora representem ideologias diferentes – Lula na extrema esquerda e Bolsonaro na extrema direita – e repitam louvores à democracia, demonstram, repetidas vezes, que têm como ideal um governo autoritário, autocrático, com o poder concentrado na presidência da República.
Que Bolsonaro flerta com o autoritarismo todos sabemos desde sempre porque ele nunca deixou de fazer referências elogiosas ao regime militar de 1964. Regime que, com mão de ferro, governou o país sem eleições diretas para a presidência da República, governos estaduais e prefeituras das capitais, que fechou o parlamento, praticou a censura e suspendeu os direitos e garantias individuais. Os constantes ataques ao Supremo Tribunal Federal e a seus ministros demostram que o sonho de Bolsonaro é o mesmo do seu filho Eduardo que disse, em 2018, que para fechar o STF basta “um soldado e um cabo”.
Lula também flerta com o autoritarismo quando minimiza a ditadura de Daniel Ortega na Nicarágua porque “temos que defender a autodeterminação dos povos” como disse em 2018 quando Ortega prendeu opositores que, nas eleições, iriam ser seus adversários. É Lula quem repete sucessivos elogios a Nicolás Maduro e se chama de “filho de Bolívar” para mostrar apoio ao regime bolivariano da Venezuela. A proximidade de Lula com a família Castro e a ditadura cubana também é conhecida por todos a ponto de Lula se negar a condenar a existência de presos políticos em Cuba.
Lula e Bolsonaro se igualam no flerte com o autoritarismo quando relativizam a invasão russa na Ucrânia. Lula chegou a dizer, em entrevista à “Time”, que Zelensky, presidente da Ucrânia é “tão responsável” pela guerra quanto o presidente russo Vladimir Putin. Bolsonaro, por sua vez, não hesitou em visitar Putin dias antes do início da invasão quando as tropas russas já se posicionavam na fronteira ucraniana, deixando clara a sua posição pró-Rússia no conflito.
Lula e Bolsonaro também são semelhantes nos ataques à imprensa que pratica o jornalismo profissional. O motivo é claro: eles não toleram críticas. Lula chegou a pedir, em 2004, a cassação do visto do jornalista americano Larry Rohter, correspondente do New York Times, por causa de uma reportagem que citava o apreço de Lula por bebidas. É de Lula também a proposta de criação do Conselho Federal de Jornalismo para fiscalizar o exercício da profissão. É ele quem defende a “regulamentação da mídia”, seja lá o que isso significa.
Já Bolsonaro, segundo levantamento realizado pela Fenaj e divulgado em janeiro no “Relatório da violência contra jornalistas e liberdade de imprensa no Brasil”, é o principal autor de agressões contra jornalistas ocorridas em 2020. O presidente é o responsável por 41% do total de casos de violência registrados naquele ano. Durante o seu governo, foram várias as ocasiões em que o presidente agrediu verbalmente jornalistas ao ser indagado sobre denúncias feitas contra o seu governo ou contra integrantes da sua família.
Com tantas juras de amor ao autoritarismo, sobram razões aos milhares de integrantes da sociedade civil que estão subscrevendo as cartas em favor da democracia, inclusive a que será divulgada no próximo dia 11 na Faculdade de Direito da USP. O Brasil, de fato, está precisando da união dos que acreditam no valor da democracia como conquista civilizatória e estejam dispostos a defendê-la contra os que flertam com os regimes autoritários.