Depois de anos de recessão – que praticamente deu um fim às conquistas do Plano Real – e do mar de corrupção – do mensalão ao petrolão – que marcaram as primeiras duas décadas do século XXI e das agressões à democracia do atual governo, o Brasil precisa, mais do que nunca, ser reconstruído.
Essa reconstrução deveria passar pelas políticas ambiental e de relações internacionais, pelo combate à corrupção, pela moralidade no uso do dinheiro público, pela reorganização da assistência à saúde e, é claro, pela prioridade à educação e ao fortalecimento da democracia.
A política ambiental brasileira deveria ser totalmente refeita, já que passamos a ser, nos últimos anos, referência do que não deve ser feito. A Amazônia em chamas, agredida por garimpos e desmatamentos ilegais, está jogada à própria sorte pelo desmonte da fiscalização. O desmatamento bate recordes enquanto os autos de infração e a aplicação de multas caem ano a ano.
As relações do Brasil com os outros países do mundo nunca estiveram tão confusas. A maior demonstração disso são as manifestações dos dois principais candidatos à presidência, Lula e Bolsonaro, que apoiam a atitude da Rússia de invadir um país soberano, avalizando as atrocidades de uma guerra desumana e sem sentido. Lula apoia a Rússia por ser de esquerda; Bolsonaro por ser um adorador de Donald Trump, desafeto do atual presidente norte-americano. Atitudes assim isolam ainda mais o Brasil da comunidade internacional.
O esforço de combate à corrupção sistêmica que assola o Brasil foi jogado na lata de lixo pelos Três Poderes da República. O Supremo por anular, com base em filigranas processualísticas, os atos da Lava Jato. O Executivo por instrumentalizar a PGR para acabar com as forças-tarefa e descaracterizar a atuação do Ministério da Justiça e a Polícia Federal. E o Legislativo por transformar a lei da austeridade em lei pró-impunidade.
O uso do dinheiro público para fins eleitoreiros nunca foi tão escancarado como agora com a oficialização do “orçamento secreto” pelo Legislativo, com o apoio do Executivo e com o beneplácito do Judiciário. São R$ 16,8 bilhões destinados às “emendas do relator”, eufemismo para a distribuição de dinheiro público para atender interesses políticos. Sem falar dos R$ 5,7 bilhões destinados às campanhas eleitorais e do R$ 1 bilhão que os partidos políticos torram a cada ano.
A assistência à saúde passou por dura prova nos últimos anos, em grande parte por causa da pandemia da Covid-19, mas é preciso avaliá-la em duas dimensões: o SUS e a Anvisa provaram o seu valor enquanto a cúpula do Ministério da Saúde cometia desatinos que elevaram substancialmente a quantidade de vítimas fatais como a pregação antivacina, o estímulo a tratamentos ineficazes e a teimosia de negar a ciência para sustentar um discurso político equivocado.
A educação, após desastradas gestões de quatro ministros no atual governo, mostrou todos os desacertos com o envolvimento de pastores na distribuição de verbas públicas e a desorganização (e a ingerência por razões ideológicas) nas provas do Enem. Sem falar que, durante a pandemia, 8 milhões de crianças entre 6 e 14 anos não tiveram acesso ao ensino em casa.
Por fim, o Brasil precisa fortalecer a democracia pondo um fim à absurda tentativa de desmoralização do processo eleitoral patrocinado pelo presidente da República. Que, aliás, é também o comandante dos ataques ao Judiciário a ponto de dar indulto a um amigo que fora condenado no dia anterior pelo STF. Esse ambiente de tensão cria péssimas expectativas para o futuro de um país que, com tantas desigualdades, não merece passar por tantas crises políticas.
Infelizmente, a reconstrução desse país que está caindo aos pedaços parece que não chegará tão cedo, já que as perspectivas eleitorais apontam para o favoritismo de dois dos protagonistas principais da catástrofe que vivemos hoje.