Circulam nas redes sociais análises de “especialistas” elogiando a posição ambígua do Brasil com relação à invasão da Ucrânia. Nessas análises, eles chegam a afirmar que a tal “solidariedade” à Rússia e a “neutralidade” manifestadas por Bolsonaro – ao lado do voto condenando a invasão dado no Conselho de Segurança da ONU – fariam com o Brasil ficasse livre das repercussões negativas da guerra e das reações russas às sanções econômicas aplicadas pelos países da Otan e Estados Unidos. Em outras palavras, para eles o Brasil ficaria em ótima posição, muito melhor que a dos países democráticos que tomam partido pró-Ucrânia.
Ledo engano. Tais “especialistas” se esquecem – ou fingem esquecer, por razões ideológicas – que em uma guerra da proporção da invasão da Ucrânia todos perdem, vencedores, vencidos, aliados e neutros. Para que ninguém duvide disso, está aí a pancada do reajuste dos combustíveis e a onda de aumentos de preços que ele provoca em todos os produtos, os alimentos em primeiro lugar. Ou seja, a inflação já chegou ao bolso dos brasileiros em uma velocidade e proporção muito maiores do que era esperada.
As consequências da guerra no Brasil não se limitarão ao curto prazo ou, como disse a jornalista Miriam Leitão, “ao posto de gasolina, à padaria, ao supermercado”. A médio e a longo prazos a “neutralidade” da nossa política externa acabará por mostrar, aos nossos maiores parceiros comerciais, que o Brasil é um país “pouco confiável” e, por isso, terá a sua imagem deteriorada como prevê o professor da Mackenzie-Brasília Márcio Coimbra.
Isso poderá se refletir nos futuros acordos comerciais ou de investimentos estrangeiros como, por exemplo, o acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul que está praticamente parado há três anos pelas críticas feitas ao Brasil pela falta de proteção ambiental na Amazônia. Mantendo uma posição divergente com relação aos países da Otan na guerra da Ucrânia, o acordo comercial com a União Europeia provavelmente vai envinagrar em definitivo.
E por que Bolsonaro tem preferido navegar nesse mar de ambiguidade, ou, como dizem os seus apoiadores, “de equilíbrio”, ao invés de ficar ao lado dos países democráticos que se opõem e reagem à invasão russa a um país soberano? Tudo indica que – fertilizantes à parte – seja por simpatia a Putin que impõe à Rússia um regime autocrático e conservador, bem ao gosto do presidente brasileiro que não se cansa de elogiar o regime militar de 1964 e a fazer pouco caso dos direitos humanos e das minorias. Só isso explica a indiferença dos bolsonaristas com relação aos bombardeios que matam milhares de civis ucranianos e não poupam nem hospitais como o de Kharkiv e a maternidade de Mariupol.
Mas há quem ache, como a professora de Direito Internacional da USP Elizabeth Meirelles, que a postura de Bolsonaro com relação à invasão da Ucrânia não é intencional porque “ele não tem nível de informação suficiente para poder analisar essa questão dentro de uma visão de relações internacionais, de política internacional”. Para a professora, a experiência de Bolsonaro “não dá base para ele fazer esse tipo de análise”.
É provável que a professora tenha razão. E é muito provável também que os “especialistas” que preveem que o Brasil se sairá bem com essa guerra acabem quebrando a cara.